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Início » Colunas » A guerra que ninguém assume: Lioness, Rússia e a violência na zona cinzenta
Política Internacional

A guerra que ninguém assume: Lioness, Rússia e a violência na zona cinzenta

Lucas Gualtieri
Última atualização: setembro 24, 2026 10:23 am
Lucas Gualtieri 15 minutos de leitura
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Na terceira temporada de Operação: Lioness, Joe McNamara, a agente da CIA interpretada por Zoe Saldaña, é sequestrada em território americano. Descobrir quem está por trás da operação se torna tão importante quanto resgatá-la.

As primeiras evidências apontam para a Rússia. Depois, outras hipóteses aparecem. Uma delas atribui o sequestro ao Irã, que teria recorrido a intermediários russos e contratado operativos bielorrussos para executar a missão. Em outro momento, surge uma possibilidade ainda mais perturbadora: uma operação de falsa bandeira concebida para parecer russa e provocar uma reação americana contra Moscou. A série muda sucessivamente a interpretação dos mesmos acontecimentos sem que os personagens disponham de certeza suficiente sobre quem efetivamente controla a operação (KAIN, 2026).

Sem revelar como esse mistério termina, é justamente essa incerteza que torna a temporada interessante para além da ficção.

Quem sequestrou Joe? Quem contratou os sequestradores? A motivação dos executores coincide com a de quem pagou pela operação? E, principalmente: como um Estado deve reagir quando suspeita que outro Estado o atacou, mas não consegue estabelecer imediatamente a cadeia entre patrocinador e executor?

A Europa está tendo de responder perguntas bastante parecidas.

Uma guerra abaixo do limiar da guerra

Desde a invasão da Ucrânia, governos europeus e a OTAN vêm atribuindo à Rússia uma campanha que combina espionagem, operações de influência, ataques cibernéticos, sabotagem, violações do espaço aéreo e ações contra infraestrutura crítica. Em sua estratégia marítima, a própria OTAN descreve a Rússia como responsável por ações híbridas e cibernéticas crescentemente agressivas contra os países da Aliança (NATO, 2025a).

Alguns episódios mostram por que essa forma de conflito cria problemas tão diferentes daqueles de uma guerra convencional.

Cabos submarinos de energia e telecomunicações foram rompidos no Mar Báltico. Em alguns casos, navios associados à chamada shadow fleet russa estiveram sob suspeita. A explicação aparentemente banal — uma âncora arrastada pelo fundo do mar — conviveu com a hipótese de sabotagem. A preocupação foi suficientemente séria para que a OTAN criasse, em janeiro de 2025, a operação Baltic Sentry, destinada à proteção da infraestrutura submarina (NATO, 2025b).

No espaço aéreo, drones e aeronaves russas produziram outro tipo de ambiguidade. A OTAN registrou, entre outros episódios, drones russos no espaço aéreo polonês e caças MiG-31 no espaço aéreo estoniano. Quando questionado sobre esses acontecimentos e sobre os incidentes no Báltico, o secretário-geral Mark Rutte reconheceu justamente a dificuldade central: determinar se determinada ação foi intencional (NATO, 2025c).

É uma diferença essencial.

Se uma unidade militar russa uniformizada destruir deliberadamente uma instalação estratégica na Estônia, a natureza do problema é relativamente clara. Se um cabo submarino for rompido por um navio comercial cuja âncora teria sido arrastada acidentalmente, o problema muda. Se um drone atravessar uma fronteira, surge a mesma pergunta: ataque, provocação, erro de navegação ou acidente?

A incerteza não impede necessariamente a reação. Mas aumenta seu custo político.

E esse é um dos terrenos mais férteis da guerra híbrida.

A OTAN utiliza o termo para descrever a combinação coordenada e adaptável de meios convencionais e não convencionais, militares e civis, ostensivos e encobertos, empregados por atores estatais ou não estatais para atingir objetivos estratégicos. A característica importante não é simplesmente utilizar métodos diferentes. É combiná-los de forma a explorar a fronteira entre paz, crise e conflito (NATO, 2016; 2018).

A Rússia não inventou essa forma de atuação. Mas fez dela um componente importante de sua política externa.

Jennifer Mathers observa uma continuidade entre as práticas soviéticas e as operações russas contemporâneas. Sob Vladimir Putin, ações encobertas passaram a compensar limitações russas em outros instrumentos de poder e a explorar vulnerabilidades das sociedades abertas. Moscou, segundo a autora, por vezes parece pouco preocupada até mesmo quando sua participação é descoberta: a negativa oficial pode coexistir com indícios que apontam para o Kremlin (MATHERS, 2026).

É aí que entra a negação plausível.

“Não fomos nós”

Rory Cormac e Damien Van Puyvelde definem ação encoberta, em termos gerais, como uma interferência politicamente motivada nos assuntos de terceiros, conduzida de forma que o envolvimento do patrocinador possa ser negado. Ela pode abranger propaganda, interferência política, sabotagem, apoio a atores violentos e assassinatos (CORMAC; VAN PUYVELDE, 2026).

Negação plausível não significa necessariamente convencer todos de que o Estado nada teve a ver com o acontecimento.

Esse ponto é importante.

A operação pode ser descoberta. Os serviços de inteligência adversários podem formar uma convicção sobre sua autoria. Jornalistas podem identificar vínculos. Governos podem inclusive fazer acusações públicas.

Ainda assim, permanecerá uma diferença entre suspeitar, atribuir politicamente e demonstrar a cadeia de responsabilidade.

Cormac e Van Puyvelde mostram que a negação não é binária. Partes de uma operação podem ser atribuídas enquanto outras permanecem ocultas; a identidade do patrocinador pode ser evidente para determinada audiência e incerta para outra; e a necessidade de sigilo pode diminuir ao longo do tempo (CORMAC; VAN PUYVELDE, 2026).

A consequência prática é criar ambiguidade.

E a ambiguidade tem valor estratégico.

O problema do artigo 5

Esse mecanismo adquire importância especial quando o alvo pertence à OTAN.

O art. 5 do Tratado do Atlântico Norte estabelece o princípio da defesa coletiva: um ataque armado contra um membro será considerado ataque contra todos. A OTAN já deixou claro que uma campanha híbrida pode, dependendo de sua gravidade, justificar a invocação do dispositivo (NATO, 2018).

Mas a guerra híbrida cria um problema anterior: quando exatamente ocorreu o ataque e quem o praticou?

Essa dificuldade não é uma construção teórica. A própria literatura da OTAN reconhece que operações híbridas procuram produzir ambiguidade e podem explorar incertezas sobre o limiar do art. 5. Se acontecimentos isolados parecem acidentes, crimes comuns ou incidentes de responsabilidade duvidosa, torna-se mais difícil produzir rapidamente uma avaliação comum entre os aliados (NATO, 2025d).

É nesse espaço que a estratégia russa encontra uma oportunidade.

Não é necessário demonstrar que cada cabo rompido, cada drone ou cada incêndio ocorrido na Europa foi ordenado por Moscou. Seria metodologicamente errado fazê-lo. O ponto é exatamente o contrário: a dificuldade de separar acidente, crime, iniciativa individual e operação estatal faz parte do problema estratégico enfrentado pela Europa.

A dúvida retarda a atribuição. A atribuição incerta dificulta a formação de consenso. E a hesitação sobre a natureza do ataque pode reduzir a capacidade de produzir uma resposta coletiva rápida.

Putin não precisa necessariamente tornar a Rússia invisível. Pode ser suficiente manter aberta a pergunta: foi mesmo a Rússia?

Os agentes contratados

Uma acusação apresentada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos em setembro deste ano ajuda a tornar essa lógica mais concreta.

Segundo a denúncia criminal (indictment), cinco integrantes de uma rede vinculada aos serviços de inteligência russos participaram de uma estrutura destinada a promover assassinatos e ataques em diferentes países. O grupo teria recrutado terceiros para vigiar alvos, executar homicídios e atacar infraestrutura civil e militar em países que apoiam a Ucrânia (U.S. DEPARTMENT OF JUSTICE, 2026; OCCRP, 2026).

O método chama atenção.

Em vez de enviar necessariamente seus próprios agentes para realizar cada ação, a rede teria recorrido a pessoas contratadas localmente. Segundo a acusação, integrantes do esquema chegaram a procurar indivíduos nos Estados Unidos para vigilância e assassinato. Na Europa, associados teriam sido empregados em ataques contra infraestrutura (U.S. DEPARTMENT OF JUSTICE, 2026; OCCRP, 2026).

O executor pode, portanto, estar várias relações contratuais abaixo de quem concebeu a operação.

Há nisso uma espécie de “Crime as a Service” aplicado à ação clandestina: capacidades existentes no mercado criminal podem ser compradas temporariamente e incorporadas aos objetivos estratégicos de um Estado. A motivação de quem executa (muitas vezes dinheiro) não precisa coincidir com a finalidade de quem encomenda.

E aqui a ficção de Lioness começa a parecer menos distante.

Da Europa ao Brasil

A mesma distinção apareceu, em contexto diferente, na Operação Trapiche.

A investigação revelou o recrutamento de brasileiros para ações relacionadas a um plano de atentados contra alvos da comunidade judaica no Brasil atribuído à ala militar do Hezbollah. Em setembro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça restabeleceu a condenação de um dos envolvidos por atos preparatórios de terrorismo (BRASIL, 2026).

Um dos pontos centrais do julgamento foi justamente a motivação financeira.

O STJ concluiu que agir por dinheiro não exclui a responsabilidade por terrorismo quando o agente sabe que está contribuindo conscientemente para um plano dessa natureza. A motivação pessoal do contratado e a finalidade da organização que o recruta podem ser diferentes (BRASIL, 2026).

A conclusão é relevante para além do direito penal.

Um Estado pode pretender intimidar países que apoiam seu adversário. O indivíduo contratado para incendiar um depósito pode querer apenas receber o pagamento. Uma organização terrorista pode pretender atacar determinado grupo. O recrutado local pode enxergar apenas uma oportunidade financeira.

O intermediário não altera necessariamente a finalidade da operação. Ele ajuda a ocultá-la.

A arma é a dúvida

É por isso que Lioness oferece uma boa introdução à guerra híbrida contemporânea.

Durante a temporada, saber quem capturou Joe não resolve o problema. É necessário descobrir quem contratou aqueles homens, quem financiou a operação e qual objetivo político existe por trás dela.

Na Europa, investigadores e serviços de inteligência enfrentam versões reais da mesma pergunta.

Um incêndio pode ser apenas um incêndio. Um cabo rompido pode resultar de negligência. Um criminoso pode estar agindo por dinheiro. Um drone pode ter atravessado uma fronteira por erro.

Ou cada um desses acontecimentos pode constituir uma pequena peça de uma campanha mais ampla.

A guerra híbrida explora justamente a dificuldade de distinguir uma coisa da outra.

Na guerra convencional, tanques cruzando uma fronteira praticamente respondem à pergunta sobre quem está atacando. Na zona cinzenta, descobrir quem está por trás do ataque pode ser a primeira batalha.

E, enquanto essa resposta não chega, a dúvida já começou a produzir seus efeitos.

Referências

BRASIL. Ministério Público Federal. STJ restabelece condenação de brasileiro por atos preparatórios de terrorismo em caso da Operação Trapiche. 17 set. 2026. Disponível em: https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/stj-restabelece-condenacao-de-brasileiro-por-atos-preparatorios-de-terrorismo-em-caso-da-operacao-trapiche. Acesso em: 19 set. 2026.

CORMAC, Rory; VAN PUYVELDE, Damien. Introduction: Broadening the Study of Covert Action. In: LONG, Magda et al. (eds.). Covert Action: National Approaches to Unacknowledged Intervention. Washington, DC: Georgetown University Press, 2026.

KAIN, Erik. ‘Lioness’ Season 3 Finale Recap and Review: A Perfect Circle. Forbes, 20 set. 2026. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/erikkain/2026/09/20/lioness-season-3-finale-recap-review-ending-explained/. Acesso em: 22 set. 2026.

MATHERS, Jennifer G. Russia: Moscow’s Use of Covert Action From Lenin to Putin. In: LONG, Magda et al. (eds.). Covert Action: National Approaches to Unacknowledged Intervention. Washington, DC: Georgetown University Press, 2026.

NATO. Warsaw Summit Communiqué. Warsaw, 9 jul. 2016. Disponível em: https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2016/07/09/warsaw-summit-communique. Acesso em: 22 set. 2026.

NATO. Brussels Summit Declaration. Brussels, 11 jul. 2018. Disponível em: https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2018/07/11/brussels-summit-declaration. Acesso em: 22 set. 2026.

NATO. Alliance Maritime Strategy. 2025a. Disponível em: https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2025/10/29/alliance-maritime-strategy. Acesso em: 22 set. 2026.

NATO. Sabotage at sea: how NATO protects critical undersea infrastructure. 2025b. Disponível em: https://www.nato.int/en/multimedia/multimedia/videos/2025/09/16/sabotage-at-sea-how-nato-protects-critical-undersea-infrastructure. Acesso em: 22 set. 2026.

NATO. Address by NATO Secretary General Mark Rutte. 2025c. Disponível em: https://www.nato.int/en/news-and-events/events/transcripts/2025/10/13/address. Acesso em: 22 set. 2026.

NATO. Algorithmic invasions: how information warfare threatens NATO’s eastern flank. NATO Review, 7 fev. 2025d. Disponível em: https://www.nato.int/docu/review/articles/2025/02/07/algorithmic-invasions-how-information-warfare-threatens-nato-s-eastern-flank/index.html. Acesso em: 22 set. 2026.

OCCRP – ORGANIZED CRIME AND CORRUPTION REPORTING PROJECT. US Charges Russian Network in Alleged European Sabotage, US Murder Plot. 2026. Disponível em: https://www.occrp.org/en/news/us-charges-russian-network-in-alleged-european-sabotage-us-murder-plot. Acesso em: 19 set. 2026.

U.S. DEPARTMENT OF JUSTICE. Members of Russian Intelligence Services Network Charged with Conspiring to Finance Terrorism and Commit Murder for Hire in the United States. Washington, 15 set. 2026. Disponível em: https://www.justice.gov/opa/pr/members-russian-intelligence-services-network-charged-conspiring-finance-terrorism-and. Acesso em: 19 set. 2026.

***
O autor escreve em caráter estritamente pessoal e acadêmico. As opiniões expressas neste artigo são de sua exclusiva responsabilidade e não representam posição institucional do Ministério Público Federal nem de qualquer órgão ao qual esteja vinculado.

MARCADO:LionessRússia e a violência
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Por Lucas Gualtieri
Procurador da República desde 2013, com atuação no combate à criminalidade organizada, especialmente como coordenador do GAECO-MPF em Minas Gerais (2020–2024), conduzindo investigações estratégicas de alta complexidade. Foi membro auxiliar da Assessoria Jurídica Criminal da Procuradoria-Geral da República junto ao STJ (2020–2025). Atua como orientador pedagógico e professor da Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU). É autor de publicações nas áreas de direito penal, controle externo da atividade policial, proteção do patrimônio público e políticas de segurança. Atualmente, é mestrando em Relações Internacionais pela PUC Minas, com ênfase em Estratégia, Inteligência e Contraterrorismo.
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