Ao acompanhar a última e histórica sessão no STF que ocorreu no dia 14/09/2026 muitas coisas poderiam ser apontadas, o impacto nas eleições da sessão ter sido protelada e não ter decidido o mérito das acusações contra Alexandre de Moraes já foi brilhantemente traduzido pelo meu colega Rafael Gripp. O objetivo desse artigo é outro, propor uma reflexão do porque têm um político na Suprema Corte.
Desde o início da sessão Flávio Dino se comportou como militante, como sofista e como líder do governo, mas nunca como um juiz. E não que os fatos extremamente graves revelados por Luís Fux e André Mendonça de uma polícia federal paralela respondendo aos desígnios do capanga de banqueiro não sejam relevantes, nem mesmo a evidência explícita de que por trás de toda a pompa de um suposto conhecedor do direito, existem aspirantes a Al Capone dentro da corte.
Mas o que mais causou espanto foi o fato de Dino sequer demonstrar hesitação em jogar para a lama a toga de juiz, minha antiga suspeita de que ele está no STF só enquanto conveniente para o PT retornou, Dino está desperdiçado no STF. Com o derretimento de qualquer alternativa já na política para substituir Lula como Fernando Haddad ou Guilherme Boulos, a única cartada do PT é tirar Dino do STF. E não se deve duvidar da efetividade dessa jogada. Dino ofendeu a todos sem perder a compostura ao contrário dos seus aliados na corte.
Daí vem o título desse artigo, para aqueles que desconhecem o significado do termo “néscio” eu explico, na origem bíblica do termo, “nescius” significava o antônimo de sábio, enquanto o sábio buscava a instrução e o conhecimento moral, o “nescius” o desprezava, na modernidade néscio passou a significar ignorante, estúpido ou inepto. Flávio Dino não é nada disso, ao contrário, ele é um sofista de primeira categoria, mas deveria parar de tentar se passar por um grande filósofo.
Voltando para a gênese do pensamento ocidental em Platão e Aristóteles. Platão constrói a figura do sofista como o antípoda do verdadeiro filósofo. Em O Sofista, o pensador contrapõe a dialética filosófica, estruturada de maneira orientada para a apreensão das essências e da verdade das Formas, ao artifício sofístico, caracterizado como uma técnica de ilusão baseada na produção de simulacros. O sofista é como um “comerciante que vende conhecimentos dos quais a alma se alimenta”(PLATÃO, 2011, p. 51) e um “imitador que produz ilusões por meio da palavra” (PLATÃO, 2011, p. 53) Para o autor, a retórica seria uma mera técnica de adulação desconectada da justiça.
Aristóteles dá continuidade a essa diferenciação no âmbito formal e metodológico. Em Refutações Sofísticas (2011) Aristóteles elabora uma síntese conceitual clássica ao declarar que “o sofista é aquele que ganha dinheiro por meio de uma sabedoria aparente, mas irreal” (ARISTÓTELES, 2011, p 37). A divergência reside na própria intenção (prohairesis) do pensador: o filósofo empenha-se em investigar os princípios fundamentais da realidade por meio do silogismo demonstrativo, enquanto o sofista vale-se de raciocínios heurísticos e falaciosos os quais simulam a lógica correta sem sustentá-la visando unicamente vencer os debates.
Quando Flávio Dino diz com todas as letras que “A corrupção não justifica um combate corrupto a corrupção” Ele automaticamente já designa os seus colegas de corte que ainda conservam um senso de justiça e moralidade como corruptos enquanto posa de arauto da moralidade dizendo que os fins não justificam os meios, e faz isso no mesmo dia em que conduziu uma pesca probatória contra políticos da oposição com o único objetivo de intimidar seus oponentes dentro da corte, repito, não houve uma única hesitação.
Depois disso ainda tentou contaminar o voto de Cármem Lúcia com um surto megalomaníaco achando que juízes são autores em matéria de Política Externa, se colocando como vítima do malvado imperialismo americano, uma tática padrão da esquerda brasileira, que não seria digna de um juiz, que supostamente deveria ser imparcial.
Eu poderia passar páginas e páginas expondo Dino como um sofista e comprovando que citar Aristóteles fora de contexto só para tentar gerar autoridade no seu argumento é vazio, mas agora chegou a hora da parte que pode ser desagradável do texto.
Dino pode ser o melhor sofista do país, mas um sofista perde o seu poder se a população não for formada por néscios. Vamos aos dados: 91,5% de quem sai do colégio sai com domínio abaixo do necessário em Matemática, 65% de quem sai do colégio sai do colégio sem o domínio necessário na língua portuguesa. Os dados recentes do PISA 2026 demonstram em uma leitura otimista estagnação, o QI médio do brasileiro é de 83, muito abaixo da média global que é 100. O Brasil não apenas é ignorante, como ele cultua a ignorância.
O Remédio para isso existe… Basta olhar como a Coréia do Sul se transformou em país desenvolvido, em 1953 devastado após a Guerra da Coreia, e com o contexto da Guerra Fria no fundo, o país precisou de apenas de 40 anos para entrar para a OCDE. Mas estamos no Brasil e Flávio Dino sabe muito bem disso. Ele sabe que o brasileiro médio é ignorante, manipulável e que irá cair em qualquer truque retórico.
Referências Bibliográficas
ARISTÓTELES. Refutações Sofísticas. São Paulo: UNESP, 2011.
PLATÃO. O Sofista. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011.
PLATÃO. Górgias. São Paulo: Perspectiva, 2011.
