Há uma frase que costuma circular entre políticos experientes, geralmente dita em tom de resignação: quem governa bem não tem voto. À primeira vista, ela parece apenas uma manifestação de cinismo. Afinal, seria natural esperar que o eleitor recompensasse os governantes que administram melhor os recursos públicos, entregam serviços de qualidade e pensam no futuro. No entanto, basta observar a política contemporânea para perceber que essa máxima contém uma verdade incômoda. Em muitos casos, quanto maior a responsabilidade de um governante, menor sua capacidade de produzir resultados eleitorais imediatos.
George Bush pai talvez tenha sido o maior exemplo desse paradoxo, ele consolidou a ordem unipolar após o fim da Guerra Fria, obteve vitórias militares… fez tudo aquilo que se esperaria de um presidente republicano na época, seu erro talvez tenha sido governar bem demais.
Essa aparente contradição não é nova. Aristóteles já distinguia o estadista do demagogo. Enquanto o primeiro orientava sua ação pelo bem comum, mesmo quando isso exigia decisões difíceis, o segundo buscava agradar à multidão explorando suas paixões e desejos momentâneos. Para o filósofo grego, a política era uma arte prática fundada na prudência, e não um concurso permanente de popularidade. O governante virtuoso precisava, antes de tudo, fazer aquilo que era correto para a cidade, ainda que isso lhe custasse prestígio.
Séculos depois, Nicolau Maquiavel chegou a uma conclusão semelhante por outro caminho. Em O Príncipe, argumenta que a estabilidade do Estado frequentemente exige decisões impopulares. Um governante responsável não pode administrar apenas para satisfazer expectativas imediatas. Em determinadas circunstâncias, precisa contrariar interesses organizados, conter gastos, enfrentar privilégios e tomar medidas cujo benefício só será percebido anos depois. A política, nesse sentido, exige coragem para suportar a impopularidade.
O problema é que a democracia contemporânea passou a operar segundo uma lógica diferente. Alexis de Tocqueville, ao analisar a democracia americana no século XIX, advertiu para o risco da tirania da maioria. Quando toda decisão passa a ser guiada exclusivamente pela busca da aprovação popular, o horizonte de longo prazo desaparece. O governante deixa de perguntar o que deve ser feito e passa a perguntar apenas o que gera mais votos.
No século XX, Joseph Schumpeter aprofundou essa percepção ao definir a democracia como uma competição entre elites pela conquista do eleitorado. Em vez de uma arena destinada à busca racional do bem comum, a política transforma-se em uma disputa permanente por apoio popular. O debate público passa a privilegiar slogans, emoções e promessas de curto prazo, enquanto reformas estruturais, que exigem sacrifícios presentes em troca de benefícios futuros, tornam-se eleitoralmente desvantajosas.
É justamente nesse ambiente que prospera o populismo. Seja de direita ou de esquerda, o populista oferece respostas simples para problemas complexos. Promete benefícios imediatos, identifica culpados convenientes e constrói uma narrativa segundo a qual qualquer limite institucional ou fiscal representa um obstáculo imposto por inimigos do povo. O resultado costuma ser conhecido: expansão descontrolada dos gastos públicos, aumento do endividamento, deterioração das instituições e perda gradual da capacidade do Estado de cumprir suas funções essenciais.
A responsabilidade fiscal talvez seja o exemplo mais claro desse dilema. Ajustar as contas públicas raramente produz aplausos. Reduzir despesas, reformar estruturas ineficientes ou eliminar privilégios gera conflitos políticos quase inevitáveis. Entretanto, ignorar esses problemas apenas adia a crise. James Buchanan lembrava que déficits persistentes representam uma forma de transferir para as futuras gerações o custo das decisões presentes. Em outras palavras, o governante irresponsável distribui benefícios agora enquanto envia a conta para quem ainda nem vota.
Friedrich Hayek acrescentava que sociedades livres dependem de governos submetidos a regras, e não de líderes que utilizam o Estado para atender demandas imediatas. Quando a política abandona limites institucionais em nome da popularidade, abre-se espaço para a erosão gradual da liberdade e da estabilidade econômica. Não é coincidência que países marcados pelo populismo recorrente convivam também com inflação elevada, insegurança jurídica e baixo crescimento econômico.
Anthony Downs ofereceu outra peça importante para compreender esse fenômeno. Em sua teoria econômica da democracia, argumenta que grande parte dos eleitores dispõe de informação limitada sobre políticas públicas. Como consequência, decisões eleitorais tendem a ser influenciadas por percepções imediatas da economia, por narrativas simplificadas e por promessas facilmente compreensíveis. Reformas que evitam uma crise futura dificilmente produzem o mesmo impacto emocional que benefícios distribuídos no presente.
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Talvez seja exatamente por isso que tantas lideranças responsáveis terminem seus mandatos menos populares do que os discursos de campanha fariam supor. O eleitor percebe imediatamente o corte de um subsídio, mas dificilmente enxerga a crise fiscal que deixou de acontecer. Sente o desconforto de uma reforma administrativa, mas raramente atribui a ela a melhoria gradual da capacidade do Estado. A boa gestão é silenciosa. Já o populismo faz barulho.
Nada disso significa defender menos democracia. O desafio não é reduzir a participação popular, mas fortalecer as condições para que a democracia produza melhores escolhas. Isso passa por educação cívica, transparência, instituições independentes, responsabilidade fiscal e uma cultura política capaz de valorizar resultados duradouros acima das gratificações imediatas. Democracias sólidas não sobrevivem apenas de eleições livres; sobrevivem também da disposição dos cidadãos em premiar quem governa pensando na próxima geração, e não apenas na próxima eleição.
Por isso, talvez seja mais correto afirmar que quem governa bem frequentemente conquista menos votos do que quem promete bem. A política democrática sempre conviverá com essa tensão. Caberá aos eleitores decidir se desejam líderes especializados em vencer eleições ou estadistas capazes de construir um futuro. A história demonstra que essas duas qualidades nem sempre caminham juntas.
Referências Bibliográficas.
ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Mário da Gama Kury. 3. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997.
BUCHANAN, James M. Public Finance in Democratic Process: Fiscal Institutions and Individual Choice. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1987.
DOWNS, Anthony. Uma teoria econômica da democracia. Tradução de Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: EDUSP, 1999.
HAYEK, Friedrich A. von. O caminho da servidão. Tradução de Anna Maria Capovilla, José Ítalo Stelle e Lya Luft. 6. ed. São Paulo: LCR, 2010.
MACHIAVELLI, Niccolò. O Príncipe. Tradução de Lívio Xavier. São Paulo: Edipro, 2019.
SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Tradução de Neil Ribeiro da Silva. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

