Nos últimos anos poucos temas chamaram tanto a atenção dos intelectuais quanto o estado da democracia ao redor do mundo, mesmo países outrora conhecidos como democracias saudáveis e com reconhecida estabilidade política entraram em ponto de ebulição. Os Estados Unidos se viram extremamente polarizados durante 3 ciclos eleitorais que suscitaram inclusive debates sobre uma possível nova Guerra Civil e até mesmo um processo de secessão. Mesmo antes da era da tecnologia o que acontecia nos Estados Unidos era um termômetro para o restante do mundo, a globalização e os novos meios de comunicação tornaram esse processo ainda mais dinâmico e rápido, o debate sobre a natureza e a capacidade da democracia em responder aos problemas da “Pólis contemporânea” que ocorreu na América se difundiu para outras democracias como a Europa e o Brasil.
Não é segredo para ninguém que a Democracia nos moldes atuais não está atendendo aos anseios da população, ainda que grande parte da fúria da plebe seja fabricada pelos vendedores do caos das redes sociais é necessário observar os sinais de insatisfação, muitas revoluções ocorreram com a motivação errada, o exemplo mais cristalino de todos foi o processo revolucionário francês em 1789, mas ainda assim os processos revolucionários ocorreram, e salvo uma ou duas exceções como a Revolução Gloriosa de 1642 e a Revolução Americana de 1766 que além de bem fundamentadas e intencionadas, foram capazes de uma raríssima autocontenção em meio ao caos do processo revolucionário, todas produziram mais dano do que benefício para as sociedades que entraram em processo revolucionário. Se engana quem pensa que o Brasil estaria muito longe disso, todos que assistiram ao Maio de 2013 viram o que é um estágio pré-revolucionário, imaginem então um estágio revolucionário.
Devido a esses fatores se faz de urgente necessidade tentar restaurar um modelo de democracia mais competente e funcional. Winston Churchill, o grande primeiro ministro britânico e um dos maiores responsáveis pela derrota do Nazismo na segunda guerra mundial (1939-1945) certa vez disse que “Diversas formas de governo foram testadas e muitas outras serão ainda neste mundo de pecado e aflição. Ninguém pretende que a democracia seja perfeita e onisciente. É verdade que têm sido dito que a democracia é a pior forma de governo, exceto por todas as outras formas que já foram tentadas na história” ( CHURCHILL, Winston. Parliament Bill. Câmara dos Comuns,11 de Nov. 1947)
Muitos se esquecem que a democracia assim como todos os demais sistemas políticos foram sistemas construído pelos homens, e portanto falhos em algum grau e de alguma maneira, a questão é que a democracia é o que melhor harmoniza os interesses conflitantes existentes na sociedade. Churchill estava bem embasado no que disse, séculos antes o filósofo político Thomas Hobbes já havia delineado a verdade inconveniente da humanidade, a natureza humana não é algo belo, ela precisa ser pacificada através de corpos intermediários, a família, a igreja, a moral social… os chamados corpos intermediários de que Alexis de Toqueville ficara maravilhado ao observar o funcionamento da sociedade americana.
Voltando a Hobbes, no capítulo XIII do Leviatã, sua Magnum opus Hobbes expõe que deixados em um estado natural a humanidade entraria na “Bellum omnium contra omnes”. “Não há conhecimento na face da terra, nem artes, letras; ou sociedade; pior de tudo, haveria o medo da perpétuo da morte violenta”. (HOBBES,1651, p 109). Hobbes não estava falando sobre a democracia, a democracia é um conceito que surge após a colaboração de Hobbes para a filosofia e para a ciência política.
O pessimismo Hobbesiano a cerca da Natureza Humana serve como um Cautionary Tale sobre todos os empreendimentos humanos, inclusive os sistemas políticos, posteriormente a filosofia e a sociologia começariam a debater a dualidade entre agente-estrutura e qual teria mais influência sobre o outro, mas isso não será aprofundado aqui, o importante é entender a natureza imperfeita do homem para combater as utopias, inclusive a de que a democracia seria tão perfeita que não poderia sequer ser discutida, a dogmatização do termo contribuiu para a sua inoperância contemporânea.
Aqui a coisa se complica de maneira considerável pois o polo político/ideológico que pauta o debate público atual está oferecendo soluções que ampliam a crise do modelo democrático. O Progressismo Woke é o maior risco para a sociedade ocidental no cenário interno da civilização, em especial porque ele se interliga com a ameaça externa representada pelo Islã com a desastrosa política de Open Borders que vem corroendo o núcleo da civilização ocidental, forçando uma convivência não natural e que amplia os inevitáveis choques de civilização prenunciados por Samuel Huntington.
Essa caixa de Pandora foi aberta por Barack Obama, o democrata foi o primeiro político em décadas a tentar usar a raça como um chamariz de votos, a questão racial americana estava pacificada devido as ações de Martin Luther King. O que seria apenas uma estratégia eleitoral que o permitisse chegar até o salão oval se transformou em um monstrengo que engoliu a cultura ocidental durante aproximadamente uma década e que hoje chamamos de Cultura Woke. Todas as minorias então aplicaram a mesma estratégia, pressionaram e ameaçaram com cancelamento e boicotes as grandes empresas e os grandes bancos caso não apoiassem a histeria coletiva do momento, o próprio Estado teve sua ordem subvertida para se adequar ao progressismo desenfreado.
Richard Weaver, um importante filósofo americano do século XX alertou, Ideias têm consequências, o mundo não ouviu.
A esquerda progressista enxerga na democracia uma extensão de seu projeto revolucionário, o movimento construtivista surgido na década de 60 que deixou as bases para o progressismo pós-moderno atacando de forma voraz a lógica básica da racionalidade da democracia forçando o sistema a cada vez mais se expandir, ao ponto dele perigosamente parar de funcionar como temos observado. Basta analisarmos ás diferentes gerações dos direitos que começaram com meras positivações do chamado direito natural (vida, liberdade e propriedade) e hoje se expandiram para além da capacidade do Estado de conseguir garantir todos esses direitos, alguns autores do Direito Internacional já falam inclusive que existem até mesmo seis gerações de direitos, a pressão progressista por incluir cada vez mais grupos considerados minoritários dentro do sistema colocou o modelo democrático em crise.
O primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe, a democracia contemporânea chegou ao breaking point, porém ao olhar para o passado temos como reestabelecer o seu funcionamento. Um grupo de intelectuais italianos como Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca, e Robert Michels (Alemão, porém radicado na Itália) no fim do século XIX e início do século XX começaram a dar uma resposta interessante, o elitismo democrático já na segunda metade do século XX o pensador austríaco Josep Schumpeter iria aperfeiçoar as visões deles e compatibilizar os insights elitistas com a democracia no seu clássico Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942)
Para o autor seria necessário impedir que a democracia se tornasse tão democrática para conseguir a preservação do sistema, Schumpeter não está inventando a roda aqui, mais uma vez a história é importante e nos mostra o que fazer, ele está apenas retomando a obra dos filósofos gregos, em especial Aristóteles que já alertavam sobre os perigos da Democracia se desvirtuar para a demagogia.
Schumpeter foi contemporâneo do horror cometido pelo Nazi-Fascismo é natural que ele fosse cético quanto a população ter um peso maior dentro do sistema e ele estava correto, por isso seria necessário criar salvaguardas para os excessos do sistema, uma das maneiras seria com o papel preponderante das elites bem educadas e não ignorantes uma vez que a natureza humana embora seja racional, em assuntos políticos com frequência é tomada pelas emoções, se a sociedade em questão se tratar de uma sociedade de massa a situação se torna ainda pior. Não é razoável esperar de um indivíduo comum a capacidade de deliberar sobre as Agendas da política nacional ou da política internacional quando até mesmo em seu universo imediato esse indivíduo toma as piores decisões possíveis.
Para Schumpeter a democracia seria mais eficiente e efetiva se os líderes políticos não tivessem que lidar com meros palpites advindos das massas. É difícil discordar dele. Se os verdadeiros democratas hoje em dia comungam da visão de Winston Churchill é necessário e vital ao projeto da esquerda progressista. Conservadores já estão acostumados com isso afinal como dizia Roger Scruton “Somos chatos, mas também estamos certos”
Obs: Não imagino que a teoria do elitismo democrático funcione no Brasil, ao menos no curto prazo, as atuais elites brasileiras são tão incultas, ignorantes e em alguns casos ainda mais imorais do que o povo. Mas essa teoria pode resgatar um funcionamento melhor da democracia na Europa e nos Estados Unidos.
Referências Bibliográficas
CHURCHILL, Winston. Discurso na Camâra dos Comuns. 11 de Novembro de 1947. Disponível em < https://api.parliament.uk/historic-hansard/commons/1947/nov/11/parliament-bill >. Acesso em 22/11/2025.
GIANTURCO, Adriano. A Ciência da Política: Uma introdução. Rio de Janeiro. Grupo GEN Editorial. 2018
HUNTINGTON, Samuel. The Clash of Civilizations?. Foreign Affairs. Vol 72. Pp 22-49. 1993
HOBBES, Thomas.(1651) Leviatã ou Matéria, forma e poder de um governo eclesiástico e civil. São Paulo. Martin Claret. 2014
OAKESHOTT, Michael. Racionalismo na Política e outros ensaios. Belo Horizonte. Editora Ayine. 2020
SCRUTON, Roger. Como ser um Conservador. Rio de Janeiro. Editora Record. 2014
SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura. 1961.
WEAVER, Richard M. As Ideias têm consequências. São Paulo. É Realizações. 2016
