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Leitura: Flávio Bolsonaro e a institucionalização do Bolsonarismo
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Início » Colunas » Flávio Bolsonaro e a institucionalização do Bolsonarismo
Ciência Política

Flávio Bolsonaro e a institucionalização do Bolsonarismo

Rodrigo Bueno
Última atualização: outubro 8, 2026 10:58 am
Rodrigo Bueno 18 minutos de leitura
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Nos últimos anos nenhuma força política no Brasil recebeu mais atenção do que o movimento ao redor do ex-presidente Jair Bolsonaro. O chamado Bolsonarismo domina manchetes na imprensa, já foi tema de inúmeros trabalhos acadêmicos e científicos, rodas de conversa em programas de entrevista e debates entre intelectuais. E uma das coisas mais interessantes desse período foi ver que tanto partidários do ex-presidente quanto seus críticos nunca se esforçaram muito para definir de fato o que é o Bolsonarismo.

O termo pode significar um xingamento, uma identidade política, uma derivação do Trumpismo como sustentam alguns analistas internacionais, a destruição da democracia ou até mesmo o resgate da mesma. Percebam aqui que a confusão é real e objetiva.

Portanto o objetivo desse artigo é tentar qualificar tanto do ponto de vista histórico quanto político e conjuntural o que realmente significa o Bolsonarismo. Isso é relevante porque conceitos mudam de significado ao longo do tempo e do espaço, ainda que guardem uma origem específica.

Os termos neoliberalismo e neoconservadorismo por exemplo foram cunhados nos anos 70 para designar economistas e filósofos políticos de direita que eram contrários ao consenso social-democrata dos anos do pós-guerra ancorados no “New Deal” de Roosevelt e na chamada “Grande Sociedade” de Lyndon Johnson. Entretanto eles costumam mudar de significado para seus partidários e críticos, foi comum ver o presidente americano Donald Trump ser chamado de neoliberal e neoconservador no seu primeiro mandato, quando quem realmente estuda Filosofia Política e Relações Internacionais sabe que Trump é um opositor de ambos.

Tendo isso em mente: O que realmente significa o Bolsonarismo?

Quando Jair Bolsonaro surgiu para o Mainstream político ele ainda era tido como uma espécie de político de nicho no seu estado natal, o Rio de Janeiro, múltiplos mandatos como deputado federal representando especificamente o interesse de uma corporação, a Polícia Militar do RJ e ocasionalmente aparecia na TV como um personagem popular levando a questão da criminalidade presente no estado para os demais locais do Brasil quando ainda nem se falava em Narcoestado e as preocupações externas dos Estados Unidos ainda eram ligadas a Guerra ao Terror no Oriente Médio.

Entre esses eventos e sua ascensão ao poder em 2018 ocorreram dois eventos diferentes, porém interligados. Acadêmicos, pesquisadores e analistas são unânimes em afirmar que a gênese desse fenômeno da Nova Direita no Brasil são as jornadas de 2013. Um ambiente na prática pré-revolucionário e que do mais absoluto caos buscou gerar uma nova ordem social no país, expondo já ali, ainda que de forma residual fraquezas na hegemonia do Lulopetismo, já desgastado pelo julgamento do Mensalão em 2011.

Mas o PT ainda era enorme institucionalmente e popular o suficiente para derrotar o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves do PSDB nas eleições gerais de 2014 no que, na época, parecia a eleição mais disputada da história do Brasil. Dilma venceu Aécio por uma diferença de 3 milhões de votos, percentualmente falando, 51,5% x 48,5%. Aquela eleição seria o prenúncio de algo muito diferente na vida política da nação, pela primeira vez na história, o PT teve uma oposição de verdade no período eleitoral e virtualmente Aécio já era tratado como presidente da república em 2018.

Mas havia outro movimento começando a dar frutos em paralelo as jornadas de 2013 e não era na política e sim no mundo das ideias. Em 2007 o Instituto Mises Brasil foi fundado por Hélio Beltrão e Ubiratan Iorio, trazendo as ideias de Mises e Hayek para o Brasil após décadas de consenso social democrata, os livros do Filósofo britânico Roger Scruton, o maior nome contemporâneo do conservadorismo britânico, também chegaram ao Brasil pela Editora Record pela primeira vez desde os anos 80 em uma coleção chamada abertura cultural e se tornaram Best Sellers. O Filósofo brasileiro Olavo de Carvalho também se tornou uma celebridade e influenciou basicamente tudo aquilo que a direita brasileira fez depois, inclusive a própria construção do seu ícone, Jair Bolsonaro.

Max Weber (1999) explica com detalhes que para conseguir algum espaço de poder em um ambiente hegemônico é necessário operar fora de uma lógica política partidária tradicional, é necessário ser uma liderança mais disruptiva, gritar mais, falar mais alto, conseguir pelo choque a atenção que o sistema hegemônico não estaria disposto a te dar, havia um componente estratégico embora com certeza não intencional por trás das gafes de Jair Bolsonaro, forçar um movimento pendular na Janela de Overton e retirar a hegemonia discursiva da esquerda no Brasil. Jair Bolsonaro não criou a direita brasileira do zero como seus partidários gostam de dizer, mas ele deu a direita um espaço político que ela não tinha.

Olavo, Scruton e Hayek podiam ser os autores mais lidos do país em determinado tempo, porém aquilo estava restrito ao que vamos chamar no texto de Conservadorismo Acadêmico, uma nova geração que iniciava os estudos na universidade exatamente naquele período, vendo as jornadas de 2013 com um misto de susto e admiração, que participou das eleições pela primeira vez em 2014 e ficou a 2% de derrotar o PT, essa mesma geração viu a Lava Jato e o Impeachment de Dilma Rousseff como um raio de esperança para limpar finalmente o Brasil, e ousou sonhar com um país finalmente desenvolvido, mas o sonho durou pouco, quando Aécio Neves foi pego com um áudio comprometedor e teve sua carreira política destruída.

Nesse momento ocorreu a primeira jogada de Jair Bolsonaro, ele percebeu uma demanda reprimida pelas ideias da direita, que já estavam presentes nas elites intelectuais das universidades particulares de ponta do país e a traduziu para um movimento personalista, populista e de culto a ele como o líder redentor do país. Criando o que vamos chamar aqui no texto de Conservadorismo Popular.

A convivência entre os grupos nunca foi fácil, o primeiro pela sua raiz elitista não gosta da popularização da direita, pois têm sim sua origem no estabelecimento de uma aristocracia bem educada capaz de conter os piores ímpetos das massas percebidas como incultas e ignorantes, são seguidores do modelo elitista de democracia proposto por Joseph Schumpeter no clássico Capitalismo, Democracia e Socialismo (1961), e o segundo por sua vez abomina por completo a vida intelectual, diz que quem estuda não tem contato com a realidade e reduz a existência humana de suas funções mais complexas, apoiam um modelo de democracia plebiscitário e popular sem grandes reflexões sobre o passado, o presente e o futuro. 

Bolsonaro unificou esses dois grupos no exato momento que Aécio caiu, não existe vácuo de poder na política, ancorado em Paulo Guedes, ele tinha o respaldo intelectual das elites acadêmicas das universidades particulares e do mercado financeiro, afinal estamos falando aqui do fundador da mais relevante faculdade de negócios e economia do país. Na ótica internacional Bolsonaro buscou emular Donald Trump que dois anos antes havia criado um novo partido republicano dentro do próprio partido, algo que Bolsonaro buscaria repetir no Brasil.

Mas no plano popular, Jair Bolsonaro percebeu, ainda que, de forma mais instintiva do que racional algo que as elites intelectuais do país já observavam, o horizonte de consciência do brasileiro, o seu potencial eleitorado, era extremamente limitado, ele precisava simplificar. Foi aqui que veio o seu segundo acerto após a unificação das duas direitas que não se toleram, a criação do lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, se foi intencional ou não, não temos como saber, na política só podemos julgar a consequência, e não a intenção.

O fato é que através dessa simplificação conceitual Bolsonaro construiu um verdadeiro império e monopolizou totalmente a direita brasileira, todos os que tentaram se colocar como alternativas pela direita foram destruídos, domesticados, ou pediram perdão para voltarem ao jogo estabelecido pela família Bolsonaro.

Entretanto como a História nos demonstra e está cheia de exemplos clássicos, todo império encontra em algum momento o seu limite, como foi exposto por Paul Kennedy (1992). O estilo de liderança de Jair Bolsonaro, caótico, estridente, radical…era o adequado para aquele momento histórico entre 2016 e 2018. Mas não foi capaz de dar a vitória para ele em 2022. Como diria Maquiavel (1997), faltou para Jair Bolsonaro saber usar a pele da Raposa quando não fosse possível usar a pele do Leão.

Ali Jair Bolsonaro encontrou o seu limite, como diria Max Weber (1999), encontrou o limite da liderança carismática, o Bolsonarismo após a dolorosa derrota para Lula em 2022 precisava se reinventar, e ele começa a fazer isso nas eleições municipais de 2024 ao deixar de ser um mero movimento de culto ao líder, mas uma força institucional real na política brasileira, o resultado de 2026 com a onda azul na câmara, no senado, nos governos estaduais e a liderança de Flávio Bolsonaro no segundo turno começou naquelas eleições municipais.

Os números mostram essa evolução gradual do Bolsonarismo de um movimento personalista para uma força política institucionalizada. Em 2018 o movimento encabeçado pelo patriarca elegeu 52 deputados federais e 4 senadores. Em 2022 elegeu 99 deputados federais e 8 senadores. Em 2026 com seu filho, Flávio na liderança elegeu 121 deputados federais e 19 senadores.

Mas o dado mais impressionante da institucionalização do bolsonarismo não veio das eleições nacionais, mas sim nas eleições municipais. No ano de 2020, o partido obteve 345 prefeituras, e nenhuma vitória em capitais. Em 2024 o partido conseguiu 517 prefeituras, 3.067 vereadores e a vitória em 4 capitais. A onda azul de 2026 começou na realidade em 2024. Flávio foi o principal coordenador da estratégia do PL naquelas eleições municipais ao lado de Valdemar da Costa Neto presidente do partido.

Muitos, tanto na direita quanto na esquerda estão menosprezando a figura de Flávio, como se ele fosse apenas um sortudo por possuir o sobrenome que se tornou a maior potência eleitoral do país, ou como se ele não passasse de um fantoche na mão do pai, isso menospreza a trajetória do senador, que já se destacava como um grande operador político no senado, tendo excelente trânsito em vários setores da direita e do centrão.

Flávio Bolsonaro é um ator político autônomo, e seu comportamento no período de campanha deixou isso muito claro. Vamos relembrar alguns dos momentos chave da campanha que demonstram como Flávio sabe usar a pele da raposa.

O primeiro deles foi a ação no Paraná para filiar o ex-juiz e senador Sérgio Moro ao PL para disputar o governo do Estado, o grupo político do governador Ratinho Jr desejava a vice-presidência, desde o início de 2025 os dois nomes dos sonhos para vice-presidência eram o do governador filiado ao PSD e da senadora Tereza Cristina do PP, ex ministra da agricultura. Muito se fala após as eleições que o PL assustou até o grupo político conhecido como centrão com o seu desempenho eleitoral em 2026, eu discordo dessa afirmativa pois não vejo em momento algum um compromisso de Flávio contra esse grupo, pelo contrário, vejo nele um perfil conciliador e negociador. Mas sua jogada no Paraná em reparar as arestas do bolsonarismo com Sérgio Moro realmente esvaziou o líder mais poderoso do Centrão (Gilberto Kassab)

O presidente do PSD que sem a vice-presidência se viu forçado a lançar uma candidatura própria liderada por Ronaldo Caiado, que ficou longe de repetir o desempenho de Simone Tebet em 2022 e pagou o preço crescendo pouco na câmara e perdendo senadores.

Outro evento que demonstra que Flávio Bolsonaro têm um entendimento superior do jogo político que seus irmãos e seu pai foi no episódio envolvendo suas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, seu pai sairia dessa xingando a imprensa e chamando tudo de fake news da imprensa tradicional, Flávio por sua vez, fez questão de explicar o que houve, deu detalhes, e em momento algum foi hostil e mal educado com jornalistas, mesmo os de veículos mais alinhados ao PT.

Se aproveitando desse momento de caos na campanha que motivou até mesmo a troca da equipe responsável pelo marketing político do senador, o governador de Minas Gerais Romeu Zema sentiu o cheiro de sangue na água e foi pra cima de Flávio na esperança de naufragar a candidatura e herdar os votos. Flávio sustentou uma posição neutra e tranquila, não pagou com hostilidade os ataques de Zema. Alguns meses depois Zema teve um resultado vergonhoso na eleição nacional com menos de 400 mil votos, ele que naufragou. Enquanto Flávio quase venceu as eleições no primeiro turno.

Flávio Bolsonaro demonstrou entender não apenas que sabe o que é a pele da raposa referenciada por Maquiavel (1997), mas também entendeu que o líder político de segunda geração não precisa se comportar como o líder político da primeira geração. Weber (1999) conceitua a “rotinização do carisma”, processo pelo qual uma liderança de primeira geração disruptiva, revolucionária, apoiada unicamente no afeto e na força pessoal, precisa então se transformar em uma estrutura duradoura e previsível (regras, partidos, burocracia) para sobreviver no tempo. O líder de segunda geração herda a base política, mas atua sob a lógica da institucionalização e da moderação do discurso para garantir a preservação do poder.

Para os intelectuais do conservadorismo acadêmico, ele é muito mais palatável do que o pai, mais inteligente, educado, e moderado. Também demonstrou entender o estado Internacional do mundo que demanda uma tomada de decisão do Brasil se ficará ao lado dos Estados Unidos ou da China na nova Guerra Fria. Para os conservadores populares Flávio faz acenos em pautas secundárias, e vez ou outra inflama a militância, mas sem deixar que tudo descambe para o caos como o seu pai.

Esse bolsonarismo institucionalizado de Flávio pode fazer menos barulho, mas sem dúvida alguma é muito mais eficiente do que o bolsonarismo original capitaneado por seu pai.

Referências

KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Campus. São Paulo. 1989

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Lívio Xavier. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. Tradução de Sergio Goiriche. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961.

SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Tradução de Márcia Xavier de Brito. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Régis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. 4. ed. Brasília, DF: Editora UnB, 1999. v. 1.

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Por Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno é bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais (IBMEC). Pós graduado em Inteligência e Contra Inteligência pela Associação Brasileira de Estudos de Inteligência e Contra Inteligência (ABEIC/CSABE). Mestrando em Política Internacional ( PUC Minas ). Seu foco principal de estudos é a área da Política Internacional, Filosofia Política e Ciência Política. Na midia já publicou na Gazeta do Povo e no Instituto Mises Brasil. Publicou artigos sobre a História da Política Internacional, Segurança Nuclear, o TNP, e os fundamentos ontológicos e epistemológicos da Ordem Mundial. Publicou artigos pela Editora Dialética sobre o pensamento de Raymond Aron, Samuel Huntington e a História do Conservadorismo. Sócio-Fundador e Membro do corpo editorial do Grupo Hermenêutica Política desde 2020. Analista Internacional e sócio do canal Factual Nacional Lattes: http://lattes.cnpq.br/3687844525565262. ORCID: orcid.org/0009-0003-4507-4943. Researchgate: https://www.researchgate.net/profile/Rodrigo-Coimbra-7
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