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Leitura: IA e sua reconfiguração material do poder (parte 1)
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Início » Colunas » IA e sua reconfiguração material do poder (parte 1)
Política Internacional

IA e sua reconfiguração material do poder (parte 1)

Filipe Chácara
Última atualização: junho 3, 2026 12:05 pm
Filipe Chácara 27 minutos de leitura
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Capital, silício e energia na nova ordem da inteligência artificial

Esta é a primeira parte de uma série. Nela, examino os três alicerces físicos do poder no tempo da inteligência artificial, o capital, o silício e a energia. As partes seguintes tratarão da regulação, do trabalho e da disputa pela verdade. Cada dado vem atribuído à sua fonte, ao final.

Contents
Capital, silício e energia na nova ordem da inteligência artificialPrimeiro movimento, quando o dinheiro vira matériaSegundo movimento, o mundo do silício se parte em doisTerceiro movimento, a corrida pela energiaO fio que costura os três movimentosFontes

Por quase vinte anos, aprendemos a imaginar a tecnologia como algo que não depende de algo físico. A maior empresa de transporte do mundo não possuía automóveis (Uber). A maior rede de hospedagem não erguia hotéis (Airbnb). A maior plataforma de notícias não escrevia uma linha editorial por conta própria (redes sociais). O valor das empresas estava na tecnologia, no código, no aplicativo, na multidão de usuários, em coisas que não enferrujavam nem ocupavam espaço. Era a promessa de um mundo em que as empresas ganhavam setores com inovação, e ela educou toda uma geração a pensar a riqueza como uma abstração.

A inteligência artificial está em outro modelo, e o faz diante de nós, em tempo real. Longe de ser etérea, a IA é hoje a indústria mais pesada do planeta. Consome um grande volume de concreto, cobre, urânio, água e eletricidade. É um volume que já rivaliza com o da siderurgia e o do petróleo. Por isso mesmo, ela devolveu à política internacional uma pergunta antiquíssima, aquela que os pensadores clássicos sempre souberam ser a verdadeira pergunta do poder. Quem controla a matéria? 

Porque quem controla a matéria controla a inteligência, e quem controla a inteligência terá nas mãos o desenho do futuro. Nessa análise trabalho exatamente em três frentes, e o segredo está em lê-las não como assuntos separados, mas como três faces da mesma de uma mesma dimensão de eventos.


Primeiro movimento, quando o dinheiro vira matéria

Comecemos pelo cenário de fundo, a economia mundial. O Fundo Monetário Internacional projeta para 2026 um crescimento global de 3,1%, acompanhado de uma inflação em alta, na casa dos 4,4%, num mundo tensionado pela guerra no Oriente Médio e pelo risco de bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo do planeta (FMI, World Economic Outlook, abril de 2026). O banco Goldman Sachs é um pouco mais cauteloso e estima 2,8%. Mas o que importa nessa estimativa é o detalhe escondido nela. Os Estados Unidos crescendo 2,6% e a China 4,8%, ambos bem acima da média do mundo, e muito à frente de uma Europa e de um Japão que ficam para trás (Goldman Sachs Research, Macro Outlook 2026).

Essa diferença não é obra do acaso. As duas economias que correm mais rápido são, justamente, as duas que mais investem em inteligência artificial. Vale a pena fixar essa ideia, porque ela orienta tudo o que vem depois. O investimento em IA está funcionando como um motor que acelera o país que o possui e deixa parado o país que ficou sem ele. Já não se trata de uma corrida de inovação entre empresas. Trata-se de uma nova divisão de tarefas entre as nações, em que poucas constroem a infraestrutura do século e as demais apenas a alugam.

Que infraestrutura é essa, afinal? Aqui precisamos de uma palavra que vai reaparecer, Capex. O termo é só a abreviação de gasto de capital, ou seja, o dinheiro que uma empresa enterra em bens duráveis, prédios, máquinas, equipamentos, em vez de gastar no dia a dia. Dito isso, o Morgan Stanley calcula que o Capex global com data centers, esses galpões gigantes recheados de computadores que sustentam a IA, somará cerca de US$ 2,9 trilhões entre 2025 e 2028 (Morgan Stanley, AI Market Trends 2026).

Para dar tamanho ao número, é mais do que o PIB de um ano inteiro de quase todos os países da Terra. E o ponto que de fato interessa é o destino desse dinheiro. Ele não se transforma em código. Transforma-se em concreto armado, em quilômetros de cabo de cobre, em urânio, em turbinas, em sistemas de refrigeração e em subestações de energia. O exemplo mais expressivo dessa virada é a parceria de US$ 27 bilhões entre a Meta e a gestora Blue Owl Capital, fechada em outubro de 2025, para erguer o data center Hyperion, na Louisiana. Foi a maior operação de crédito privado já montada para um único projeto no setor.

Chegamos à nossa primeira leitura, e convém marcar com clareza que aqui começa a interpretação. Quando uma indústria passa a exigir tamanha quantidade de dinheiro físico, a industria começa a se fechar para novos entusiastas e se torno um negócio fechado para poucos. Os critérios de entrada já não são tão simples para serem resumidos em uma boa ideia ou um código engenhoso, e sim a capacidade de mobilizar dezenas de bilhões de dólares de uma só vez. 

Pouquíssimos no mundo conseguem pagar essa entrada. E assim a inovação, que o próprio setor sempre vendeu como uma força democrática e espalhada por toda parte, se torna um duelo que apenas os gigantes conseguem lutar.

Há um desdobramento ainda mais delicado. Lembre que cerca de US$ 1,4 trilhão desse investimento sairá do caixa próprio das gigantes, e não de empréstimos. Pense no que isso significa. Quem paga com o próprio dinheiro não precisa pedir emprestado. Quem não pede emprestado não se importa tanto com os juros. E quem não se importa com os juros depende cada vez menos das decisões do Estado, que governa a economia, em grande parte, justamente mexendo nos juros. Estamos diante de empresas privadas que acumulam um grau de autonomia que, na história, pertenceu quase só a governos. É a velha lei da concentração do poder, que o pensador Robert Michels descreveu há mais de um século, reaparecendo agora no cenário digital.

O próprio Fundo Monetário Internacional enxerga o perigo e adverte que uma regulação mal desenhada tende a fortalecer os gigantes, porque só eles têm fôlego para arcar com o custo de obedecer a regras complexas, enquanto os pequenos estão sufocam (FMI, nota sobre as implicações econômicas da IA, 2026). Eis o paradoxo, a regra criada para domar o gigante, quando malfeita, acaba protegendo o próprio gigante.

Resta a dúvida que ronda todo o mercado. E se for uma bolha? A pergunta é honesta e nasce dentro das próprias casas de análise. O Goldman Sachs projeta que a IA acrescentará apenas 0,4 ponto percentual ao crescimento do lucro das empresas do índice S&P 500 em 2026, subindo para 1,5 ponto em 2027 (Goldman Sachs Research). 

São ganhos reais, mas modestos perto da euforia que tomou as bolsas. Como o índice americano está hoje concentrado em meia dúzia de empresas de tecnologia, muitos analistas comparam o momento ao estouro das pontocom, no início dos anos 2000, caso a produtividade prometida não apareça na economia de verdade. Existe, porém, um sinal de que há possibilidade real de ganhos.

O Morgan Stanley observa que a parcela de empresas capazes de mostrar um ganho concreto e mensurável com a IA saltou de 16% no fim de 2024 para 30% no fim de 2025. Em outras palavras, o mercado começou a ter mais expectativas e cobranças reais de resultado, e não quer mais promessa para futuros longos.

Com essa base de informações, preciso destacar uma lição que a história guarda e que costuma ser esquecida no calor do debate sobre bolhas. Mesmo as maiores bolhas de infraestrutura deixaram heranças que sobreviveram à ruína. A febre das ferrovias na Inglaterra do século XIX arruinou investidores, mas os trilhos permaneceram e moveram a economia por gerações. 

A euforia da fibra ótica no ano 2000 quebrou empresas aos montes, mas os cabos continuaram enterrados e sustentaram a internet que veio depois. Se houver um tombo nas ações de IA, e ele é possível, os data centers, as usinas e as redes elétricas não vão sumir. A matéria fica. E quem ficar com a matéria ficará com o poder. Esse é o ponto que quase toda discussão sobre bolha deixa escapar.


Segundo movimento, o mundo do silício se parte em dois

Se o capital é o sangue dessa nova ordem, o silício é o seu sistema nervoso. É em torno dele que se trava a disputa geopolítica mais afiada do momento. E aqui vale o esforço de fugir da manchete preguiçosa, “Estados Unidos contra China”, para enxergar o mecanismo por dentro.

Os chips mais avançados são medidos em nanômetros, uma unidade minúscula. Quanto menor o número, mais moderno e mais potente o chip. Fabricar os menores exige máquinas raríssimas e caríssimas, dominadas por pouquíssimas empresas no mundo. Guarde isso, bem essa informação.

Em dezembro de 2025, o governo americano tomou uma decisão que pegou muitos de surpresa. Em vez de simplesmente proibir, resolveu permitir a venda do H200, um chip avançado da fabricante Nvidia, para a China, cobrando por isso uma taxa de exportação de 25%. Em meados de janeiro de 2026, o órgão americano de controle de comércio, o Bureau of Industry and Security, publicou as regras dessa liberação, e elas são duras. Um limite de 50% sobre o que for vendido aos clientes americanos, inspeções e testes feitos por terceiros em solo dos Estados Unidos, certificação de que o uso será apenas civil, e a exigência de que o mercado interno americano seja abastecido primeiro (Institute for AI Policy and Strategy, análise da licença do BIS, janeiro de 2026).

À primeira vista, parece uma abertura. Na prática, é o contrário, e um detalhe derruba qualquer ideia de comércio livre. Embora empresas como Alibaba, Tencent e ByteDance tenham sido autorizadas a encomendar mais de 400 mil unidades do chip, até maio de 2026 nenhuma remessa havia saído. E o motivo diz muito. Foi a própria Pequim que mandou as empresas recuarem, por considerar as condições restritivas e humilhantes demais (BanklessTimes, maio de 2026). O efeito sobre a Nvidia foi brutal. O próprio presidente da empresa, Jensen Huang, reconheceu que a fatia da companhia no mercado chinês, antes em torno de 95%, caiu praticamente a zero.

O que podemos entender desses fatos? A nossa leitura é que a tentativa de coerção produziu exatamente aquilo que pretendia evitar. Em vez de conter a China, empurrou-a para a autossuficiência. 

Sem acesso garantido aos chips americanos, a China acelerou um esforço que já vinha tentando havia anos. A estatal SMIC fabrica hoje chips de 7 nanômetros sem possuir as máquinas mais avançadas do mundo, contornando a falta com técnicas alternativas e mais trabalhosas, e já desenvolve o nó de 5 nanômetros. Tudo isso financiado por um fundo do próprio Estado chinês, de cerca de US$ 47,5 bilhões, apelidado de Big Fund III.

A história econômica já viu isso se repetir várias vezes. O embargo raramente mata o adversário. Quase sempre, ele o industrializa. Foi o que o economista Friedrich List descreveu, ainda no século XIX, ao defender a proteção das indústrias jovens, e foi o que se viu na América Latina, no Japão do pós-guerra e em tantos outros casos. Fechar o mercado para um rival que tem vontade política e dinheiro é, no fundo, ensiná-lo a produzir sozinho. É justo, porém, fazer a ressalva que separa a análise séria da propaganda. O atraso tecnológico da China ainda é estimado em duas a três gerações em relação ao que há de mais avançado. Não estamos diante de um empate. Estamos diante de uma independência forçada, que é outra coisa, e talvez mais perigosa para o Ocidente no longo prazo, porque dá origem a um segundo ecossistema completo, com chips e programas próprios, incompatível com o primeiro.

E é esta a consequência mais grave. Não vivemos uma briga comercial passageira, e sim o nascimento de uma espécie de cortina de ferro digital. Dois mundos tecnológicos que não se comunicam, cada um com seus chips, seus padrões e suas regras. A pergunta que isso impõe ao resto do planeta, Brasil incluído, é desconfortável. De que lado da cortina vamos ficar, e teremos sequer o direito de escolher?

Porque a disputa já chegou ao nosso continente, e por uma porta inesperada. Depois da captura de Maduro, em janeiro de 2026, os Estados Unidos passaram a buscar os minerais estratégicos da Venezuela, enquanto compradores chineses se abastecem desses materiais pela fronteira com a Colômbia, e Washington pressiona o governo de Bogotá (International Crisis Group, com reportagens da CNN e do South China Morning Post; InfoAmazonia, novembro de 2025). Aqui, de novo, a honestidade pede uma ressalva que muita análise prefere omitir. A viabilidade econômica das chamadas terras raras venezuelanas ainda é incerta, e o refino desses minerais, que é a etapa que de fato dá poder, continua nas mãos da China, que domina mais de 90% dele no mundo inteiro. Ter o minério enterrado no chão não é o mesmo que ter poder sobre ele.

Ainda assim, o quadro é nítido o bastante para uma conclusão, e ela é interpretativa. A América Latina volta a entrar numa disputa mundial como fornecedora de matéria bruta, e não como protagonista. É o mesmo papel que cumprimos na Guerra Fria, quando fomos tabuleiro de uma partida decidida lá fora. A diferença é que, desta vez, o prêmio não é uma bandeira ideológica, e sim aquilo que está, literalmente, embaixo do nosso chão. A geologia voltou a ser geopolítica.


Terceiro movimento, a corrida pela energia

Existe um limite físico que nenhum capital, por maior que seja, consegue driblar facilmente. A inteligência artificial precisa de eletricidade. Muita, e de forma estável, vinte e quatro horas por dia. E foi exatamente aí, na geração de energia, que a indústria mais moderna do mundo esbarrou no mais antigo dos gargalos.

Um data center voltado para IA consome muito mais eletricidade do que um data center comum, e a demanda dessas instalações nos Estados Unidos deve crescer fortemente até o fim da década. O Goldman Sachs estima que elas saltem de cerca de 3% para cerca de 8% de todo o consumo de energia elétrica do país até 2030. Para se ter ideia do aperto, em várias regiões a fila para conseguir uma simples conexão com a rede elétrica já passa de dez anos. A rede que existe não foi construída para alimentar uma fome desse tamanho.

A resposta das gigantes da tecnologia foi tão ousada quanto reveladora. Elas voltaram à energia nuclear, e não como meras clientes, mas como compradoras e financiadoras diretas. Aqui aparece uma sigla que convém abrir, PPA, que significa contrato de compra de energia, o acordo de longo prazo pelo qual uma empresa garante para si a produção de uma usina. A Microsoft fechou um PPA de vinte anos com a Constellation Energy para reativar um reator de 835 megawatts na usina de Three Mile Island, rebatizada de Crane Clean Energy Center, com religamento previsto para 2028 (Constellation Energy; Data Center Dynamics; Utility Dive). Vale corrigir aqui um engano que circulou bastante. A cifra de US$ 16 bilhões ligada a esse acordo não é o valor do contrato, e sim o impacto estimado na economia da Pensilvânia ao longo de duas décadas. O investimento na reativação em si gira em torno de US$ 1,6 bilhão. 

A Amazon anunciou mais de US$ 20 bilhões em projetos na Pensilvânia e contratou quatro pequenos reatores modulares com a empresa X-energy, com 320 megawatts iniciais e potencial de chegar a 960, além de um acordo com a Dominion Energy, na Virgínia (Amazon, outubro de 2024 e junho de 2025). O Google fechou contrato com a Kairos Power para o reator experimental Hermes 2, em Oak Ridge, no Tennessee, que fornecerá até 50 megawatts à rede pública local, dentro de um plano de alcançar 500 megawatts até 2035 (Kairos Power; Tennessee Valley Authority, agosto de 2025). 

A Meta montou o pacote mais ambicioso, somando cerca de 6,6 gigawatts, anunciado em janeiro de 2026, em parceria com a Vistra, a TerraPower e a Oklo. E aqui um registro preciso, não é com a Constellation, com quem a Meta tem um acordo separado e anterior, de junho de 2025, pela usina de Clinton, em Illinois (Constellation Energy; Trellis). O pacote da TerraPower prevê dois reatores do modelo Natrium, somando até 690 megawatts, e o da Oklo, até 1,2 gigawatt em Pike County, Ohio. Por fim, em 27 de maio de 2026, Amazon, Google, Meta e Microsoft uniram-se no consórcio Elemental Impact, para investir em jovens empresas de tecnologia limpa voltadas à refrigeração e à redução de emissões de seus data centers (CarbonCredits, maio de 2026).

A lista é longa, mas o que importa é o que ela revela, e voltamos à análise. Estamos diante de algo inédito na história. Empresas privadas adquirindo, reativando e construindo infraestrutura de energia em escala de país, do tipo que, até ontem, pertencia ao Estado. Quando uma empresa de tecnologia compra a produção inteira de uma usina nuclear por vinte anos, ela não está só garantindo o próprio abastecimento. Está, na prática, retirando aquela energia da rede pública e reservando-a para si. Repare como isso fecha o raciocínio que abrimos lá no primeiro movimento. As gigantes que já não dependem do crédito caminham agora para não depender da rede elétrica pública. A autonomia que vimos no plano do dinheiro se completa no plano da energia. São, cada vez mais, ilhas de poder autossuficientes dentro do território dos Estados.

Há ainda uma ironia que não se pode deixar passar. O renascimento da energia nuclear, que governos e ambientalistas tentaram emplacar por décadas sem grande êxito, está finalmente acontecendo. Só que não por decisão política nem por urgência com o clima. Está acontecendo porque a inteligência artificial precisa de energia e o capital privado decidiu pagar por ela. A descarbonização, que parecia uma bandeira pública, avança hoje como efeito colateral de uma necessidade empresarial. Quem vai mandar nessa nova matriz de energia, o cidadão ou a corporação, é uma das perguntas políticas mais importantes da década, e mal começamos a fazê-la.

Sobra a conta de quem ficou de fora do clube. Cada porção de energia capturada por um data center é energia a menos, ou mais cara, para a população ao redor. A pressão sobre as tarifas, sobre a rede e sobre a água das comunidades vizinhas é real e cresce. E aqui a lição chega direto a nós. Num país como o Brasil, dono de uma matriz elétrica relativamente limpa e farta, a chegada dessa indústria pode ser uma bênção ou uma armadilha, conforme quem definir as regras antes que os contratos sejam assinados. Energia barata atrai data centers. A questão é se o brasileiro será sócio dessa atração ou apenas quem paga a tarifa que sobe.


O fio que costura os três movimentos

Capital, silício e energia. Vistos de longe, parecem três assuntos técnicos e distantes. Vistos de perto, são a mesma história contada três vezes. A inteligência artificial está reconcentrando o poder do mundo em torno do controle de coisas físicas, dinheiro em escala de país, chips de altíssima complexidade e energia estável e abundante. Quem detém os três, comanda a fronteira. Quem detém um ou dois, negocia. Quem não detém nenhum, fornece a matéria-prima e paga para usar aquilo que os outros construíram.

O Brasil e a América Latina, neste momento, estão na terceira posição. Isso não é uma sentença, é um diagnóstico, e diagnóstico serve para orientar o tratamento. Compreender com clareza onde estamos nessa situação, sem o deslumbre de quem trata a tecnologia como mágica e sem o medo de quem a trata como maldição, é a primeira condição para deixarmos de ser apenas o território por onde a disputa passa. Nas próximas partes desta série, veremos quem está escrevendo as regras desse novo mundo, o que a IA fará com o trabalho humano e, por fim, a mais sutil de todas as disputas, a que se trava pelo controle daquilo que aceitaremos como verdade.


Fontes

  1. Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook, abril de 2026, e nota sobre implicações econômicas e financeiras da IA, 2026. https://www.imf.org/-/media/files/publications/imf-notes/2026/english/insea2026002.pdf
  2. Goldman Sachs Research, Macro Outlook 2026 e projeções para o S&P 500. https://www.goldmansachs.com/insights/articles/s-and-p-500-forecast-to-climb-as-earnings-growth-powers-stocks-higher
  3. Morgan Stanley, AI Market Trends 2026: Global Investment, Risks, and Buildout. https://www.morganstanley.com/insights/articles/ai-market-trends-institute-2026
  4. Institute for AI Policy and Strategy, análise da licença do BIS para o H200. https://www.iaps.ai/research/bis-licensing-policy-for-h200s
  5. BanklessTimes, sobre a autorização de compra do H200 sem envios concretizados. https://www.banklesstimes.com/articles/2026/05/14/us-clears-alibaba-tencent-to-buy-nvidia-h200-but-no-shipments-yet/
  6. Oplexa, US China Chip War 2026. https://oplexa.com/us-china-chip-war-2026-semiconductor/
  7. InfoAmazonia, sobre minerais críticos na região amazônica e venezuelana. https://infoamazonia.org/en/2025/11/27/the-price-of-progress-the-dark-side-of-critical-minerals-in-the-amazon/
  8. Constellation Energy, sobre o Crane Clean Energy Center (Three Mile Island) e o acordo de Clinton com a Meta. https://www.constellationenergy.com/news/2024/Constellation-to-Launch-Crane-Clean-Energy-Center-Restoring-Jobs-and-Carbon-Free-Power-to-The-Grid.html
  9. Data Center Dynamics e Utility Dive, sobre o acordo da Microsoft e o religamento previsto para 2028. https://www.datacenterdynamics.com/en/news/three-mile-island-nuclear-power-plant-to-return-as-microsoft-signs-20-year-835mw-ai-data-center-ppa/
  10. Amazon, sobre os acordos nucleares com X-energy e Dominion Energy. https://www.aboutamazon.com/news/sustainability/amazon-nuclear-small-modular-reactor-net-carbon-zero
  11. Trellis, sobre os parceiros nucleares da Amazon, Google, Meta e Microsoft. https://trellis.net/article/amazon-google-meta-and-microsoft-go-nuclear/
  12. CarbonCredits, sobre o consórcio Elemental Impact. https://carboncredits.com/u-s-based-elemental-impact-teams-up-with-big-tech-to-build-greener-ai-data-centers/

Nota editorial. Alguns acordos citados ainda estavam em fase de execução na data desta análise, caso das vendas do H200, autorizadas mas não concretizadas, e de vários projetos nucleares ainda em licenciamento. Onde a concretização é incerta, o texto procurou sinalizar. As fontes geopolíticas sobre Venezuela e Colômbia reúnem reportagens do International Crisis Group, da CNN e do South China Morning Post, consolidadas na cobertura citada.

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Por Filipe Chácara
Bacharel em Administração, com especialização em Marketing, e formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Atua como escritor, professor e redator publicitário, com foco na interseção entre literatura, política, filosofia, economia e comunicação estratégica. Leciona atualmente sobre a obra de C. S. Lewis, utilizando a literatura como ferramenta de análise cultural e política, e prepara novos cursos voltados a autores clássicos e contemporâneos. Seus textos e aulas partem da premissa de que ideias moldam sociedades — e que compreender narrativas, símbolos e linguagem é essencial para entender o poder, a cultura e o comportamento humano.
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