“Contos de fada não dizem as crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fada dizem ás crianças que dragões podem ser mortos” – G.K.Chesterton
Começo esse artigo fazendo um enorme mea-culpa, em minha adolescência e juventude eu possuía uma interpretação equivocada de que contos de fada e histórias de fantasia serviriam apenas para mentir para as crianças de que tudo era muito simples e fácil como os contos de fada fazem parecer.
Essa posição tinha um motivo, a exposição precoce as obras de Platão. Minha posição era 100% Platônica a respeito, em A República . O filósofo grego diminui outras formas de literatura que não a filosófica afirmando que a poesia possuiria um caráter enganador na medida que apenas imitava a realidade e portanto não poderia tratar da verdade, objeto final da filosofia. Então o homem ao ter contato com essas outras modalidades fictícias estaria se afastando da verdade e da sabedoria. Entretanto eu, e ouso dizer Platão estávamos errados.
Em Abolição do Homem, C.S. Lewis aborda o fato de que ás pessoas só eram consideradas sérias se houvessem se despido das suas emoções. Por óbvio que é a capacidade racional que nos separa dos animais, porém um racionalismo tão obsessivo acaba por obscurecer a capacidade da humanidade de sentir emoções, dessa forma enfraquecendo a formação completa do indivíduo enquanto ser humano. Platão já representava em certo sentido esse pensamento em A República quando dizia que os sentimentos compartilhados entre filhos e pais seriam uma fraqueza e não uma virtude.
O fato é que o efeito da ficção seja ela a literatura de Homero ( agora ainda mais popular graças ao filme do diretor Christopher Nolan), de Tolkien, Lewis, Conan Doyle ou os modernos super-heróis são positivos para o leitor. E além disso guardam inúmeras conexões capazes de revitalizar ou abrir uma nova camada na percepção literária e cultural dos indivíduos que consomem tal material. Existe uma verdade que precisa ser dita aqui, todos precisamos de algo para acreditar.
Ao longo da história toda sociedade com algum grau, mesmo que seja mínimo de organização construiu uma simbologia mitológica, com personagens, ações e valores que refletiriam as reflexões dessas sociedades sobre aquilo que era o bom, o justo, o belo, o errado e o feio. Do ponto de vista histórico quando a mitologia surgiu ela firmou ás suas bases em grande parte numa época pré-filosófica, ou seja, bem antes da constituição das ciências sociais, e em especial da filosofia como um campo de estudo teórico, essa formalização ocorre no século IV AC no chamado período clássico grego (STRAUSS, 1989).
Portanto é correto dizer que a mitologia é um fenômeno pré-filosófico e aqui que as coisas se complicam, se retomarmos as duas pedras angulares da literatura ocidental Ilíada e Odisséia de Homero veremos que existe cerca de 400 anos de diferença entre a descrição das instituições políticas gregas e a reflexão e explicação sobre as mesmas. Os grandes mestres da filosofia clássica (Sócrates, Platão e Aristóteles) refletiram e explicaram Ex Post Facto essas instituições. Tal fato nos leva a refletir sobre a importância da historiografia para compreender a mitologia tanto clássica quanto moderna.
Se estamos falando de um momento histórico anterior ao estabelecimento da filosofia, também estamos falando de um momento pré-científico, portanto precisamos entender antes o hoje para entender o ontem, tomemos a Ciência Política como exemplo específico para entender o todo, na sociedade moderna onde a ciência sem dúvida está acima na hierarquia da produção de conhecimento em relação a mitologia e a filosofia partimos do entendimento que os especialistas são a autoridade pública nos assuntos que eles estudaram, nesse sentido o natural é buscar os cientistas políticos para explicar o surgimentos das regras e das instituições políticas correto? Porém aqui nos deparamos com o fato histórico de que como não havia ciência, não havia como existir um cientista político, portanto para tal tarefa apenas a história poderia auxiliar através do seguinte método, o chamado discurso mitopoético.
A mitopoesia se define em poucas palavras como o ato de criar uma mitologia própria, o primeiro uso documentado do termo é de 1846 catalogado pelo dicionário americano Merriam-Webster, a análise da origem da palavra nesse caso nos diz muito, etimologicamente ela vem de Mythos e Poiia, enquanto a primeira significa conto ou lenda, a segunda significa fazer ou produzir. Como podem suspeitar a palavra tem origem grega, é inevitável sempre retornar a Grécia durante esses estudos, não é um exagero quando se diz que o berço de toda a cultura ocidental deriva dos períodos áureos da Grécia antiga.
Tal método se prova valioso quando analisamos os registros históricos e percebemos que toda grande civilização do passado possuía mitos que ajudaram na sua criação, na sua justificação e na sua manutenção, em outras palavras esse tipo de uso da linguagem se utiliza da imaginação para criar uma noção de ordem social.
Seja na Grécia com Zeus, Hércules e Apolo, na Europa nórdica com Odin e Thor, ou no Egito com Anúbis e Rá. Todos esses deuses incrustrados na mitologia e cultura desses povos funcionavam como guias de comportamento seja para a contemplação e a adoração, seja evitar a punição. Usualmente todo método mitopoético irá envolver algum tipo de fé, não necessariamente religiosa mas normalmente oriundas dela.
A origem do mito do Lobisomem por exemplo deriva de uma punição aplicada por Zeus ao rei Lycaon de Acadia, que matou, cozinhou e sacrificou o próprio filho Nyctimus para o rei do Olimpo para testar se ele realmente era um Deus, se sentindo ultrajado com a crueldade, Zeus amaldiçoou o antigo rei e o transformou numa criatura híbrida de homem e lobo além de restaurar a vida do filho de Lycaon. Essa passagem de Metamorfose do poeta romano Publius ilustra o poder de Zeus, sua compaixão e aversão a crueldade além de demonstrar um valor de se opor ao canibalismo.
Todas essas temáticas seriam exploradas em vários contos mitológicos, através das eras, para os romenos, Vlad Tepes popularmente conhecido como Vlad, o Impalador foi um herói de guerra que impediu que o país fosse invadido e anexado ao império turco. Sua bravura e crueldade em batalha somada ao rumor de que ele bebia o sangue de seus oponentes como forma de intimidação acabou se tornando a base de inspiração para a criação do Conde Drácula por Bram Stoker no século XIX.
O método mitopoético explica de modo simbólico e imaginativo a realidade em contraste com o método científico, enquanto a ciência trata de um objeto que permanece válido na realidade em todo o tempo, o método mitopoético cria sua própria realidade ao contar uma história em determinado tempo, o famoso era uma vez… categorizações científicas de verdadeiro ou falso não se aplicam ao método mitopoético, pois a sua função é literária e simbólica, o importante não é o que literalmente ele está dizendo, o fundamental é a mensagem que ele transmite.
Eric Havelock, um dos grandes estudiosos da mitologia grega dizia que havia uma grande relevância na forma como esses mitos eram passados adiante antes do desenvolvimento da escrita em 3500 A.C. A estrutura dos mesmos facilitava a memorização, continham rimas, repetições e intervalos, por isso tinham um impacto emocional tão forte.
Marcel Detienne, historiador belga também deu contribuições importantes para compreender o impacto dos discursos mitopoéticos os ligando diretamente a política e o surgimento dos intelectuais. Detienne detectou que as primeiras histórias de heróis estavam ligadas ao estabelecimento das primeiras monarquias, os primeiros reis e governantes usualmente são guerreiros que ascendem ao poder e têm suas histórias contadas de uma maneira narrativa para justificar o poder não apenas dele, mas dos seus descendentes, os primeiros intelectuais eram os responsáveis por validar esse poder militar com ás suas histórias, revelando assim a intelectualidade como outro poder existente desde os primórdios.
As primeiras cidades do período antigo não surgiram através de elementos práticos como contratos e constituições mas a partir de mitos compartilhados, isso comprova que existe na natureza humana algo que sempre irá necessitar de um elemento narrativo necessariamente não estritamente racional. Imagens, símbolos e impacto emocional também são importantes para a construção cultural da humanidade.
Com o passar do tempo a linguagem mitopoética ganhou contornos mais racionais e se acoplou em áreas de estudo como a Literatura, a Teologia, a Filosofia e a Psicologia. Seja nas alegorias bíblicas, no contratualismo ou na psicologia cognitiva. Um estudo famoso conduzido por Heider e Simmel (1944) mostrou que a força dos mitos é tão poderosa que não podemos inteiramente supera-los com a razão. Experimente assistir um filme de terror a noite e ir dormir logo em sequência, através da sugestão, qualquer barulho não usual irá te remeter ao monstro fictício, da mesma maneira quando você vê um S amarelo e vermelho automaticamente irá lembrar do Superman.
O conceito da ordem social abordado anteriormente como um dos motivadores da existência dos discursos mitopoéticos retorna aqui em importância pois são os valores e os princípios fornecidos pela filosofia e pela religião que tornam possível a vida em sociedade, esses valores e princípios eram antes fornecidos pela mitologia. Essa intercessão se manteve relevante nos séculos posteriores.
O pensador florentino Maquiavel alertava para a incapacidade de que a ordem fosse mantida a todo o tempo única e exclusivamente pela força, por isso defendia que a religião tivesse função e importância na vida coletiva, pois ela ensina a reconhecer e respeitar a ordem política a partir dos mandamentos religiosos.
“Embora Roma tenha sido fundada por Rômulo e se reconheça como filhas suas o nascimento e a educação, os céus, julgando que as leis (ordini) de Rômulo não bastavam para tanto império, inspiraram o senado romano para que elegesse Numa Pompílio como sucessor de Rômulo, de modo que as coisas que este deixou de lado foram reguladas por Numa. Este, encontrando um povo ferocíssimo e querendo reduzi-lo à obediência civil com as artes da paz, recorreu à religião como elemento imprescindível para manter a vida civil (civilità ) e a constituiu de modo que, por muitos séculos, não havia tanto temor a Deus como naquela república, o que facilitou todos os empreendimentos que o senado ou os grandes homens de Roma planejaram levar a cabo ( Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. P 11).
Max Weber sustentava que a Ordem social derivava de uma percepção de legitimidade dupla o cognitivo (representativo) e o moral-normativo (vigência e legitimidade). A imagem de uma espécie de Ordem portanto é o que garantiria a regularidade das ações-sociais dos participantes da mesma. “Toda ação, especialmente a ação social e, por sua vez, particularmente a relação social, podem ser orientadas, pelo lado dos participantes, pela representação da existência de uma ordem legítima” (WEBER, 1921, p. 19).
Agora que já estudamos o surgimento e as características do método mitopoético, a relação que ele possui com as demais áreas de estudos, e as razões tanto morais quanto políticas para a sua existência podemos entender o que leva a sua popularidade ser consistente e duradoura ao longo dos séculos, para tal precisamos falar de um novo conceito, o dos arquétipos.
Jung considerava que esses arquétipos eram herdados, passados de geração em geração pois transmitiam valores universais da sociedade, evocando o pacto de compromisso inter geracional de Edmund Burke “a sociedade é uma associação não só entre os vivos, mas também entre os que estão mortos e os que irão nascer” (BURKE, 1982, p. 112).
Jung considerava esses arquétipos universais pois se repetiam em mitos, religiões, histórias e sonhos ao redor do mundo. Esses arquétipos influenciam pensamentos, emoções e comportamentos, na maioria das vezes de maneira inconsciente. Parte do impacto duradouro desses personagens e histórias é que eles servem como modelos morais e de tomada de decisão. O Drácula ensina sobre as dores da perda de um amor, O Superman inspira a verdade e a esperança e O Batman inspira a virtude e a justiça
Joseph Campbell concordava que os arquétipos são personagens da mitopoesia que carregam uma série de características e comportamentos que refletem na obra o inconsciente coletivo da humanidade. Os heróis e os mitos são uma parte intrínseca do desenvolvimento cultural da humanidade.
Jung estabelecia 12 arquétipos: o guerreiro, a criança, o órfão, a criadora, o cuidador, o sábio, o coringa, o mago, o governante, a rebelde, e o amante. A partir de tais arquétipos o psiquiatra suíço identificava um padrão de repetição comum a todas as histórias, os personagens de qualquer obra irão se encaixar em um dos 12. As vezes em mais do que um.
Nos dias de hoje sem sombra de dúvidas a maior representação mitológica são os Super-Heróis. Não é por acaso que a Liga da Justiça têm em seus membros representações dos deuses gregos, Batman e Hades, Superman e Zeus, A Mulher Maravilha e Atena, Flash e Hermes, Aquaman e Poseidon. Também não é por acaso que os Vingadores possuem um Deus nórdico (Thor) em suas fileiras. A mitologia não acabou, ela se transformou, e ela não foi superada pelo desenvolvimento da ciência. E precisamos dela, sempre iremos precisar. Porque todos nós precisamos de algo para acreditar, para nos inspirar, para encontrarmos mesmo no meio da confusão e da tristeza uma forma de sermos melhores e não acabarmos no buraco negro do Niilismo.
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