Prever um resultado eleitoral é uma das tarefas mais básicas de um bom analista político e também uma das mais difíceis, condensar em uma previsão acontecimentos que variam entre quatro a seis anos ou até mesmo décadas no caso dos regimes parlamentaristas é complexo, a percepção de importância de determinados tópicos vai variar conforme inúmeras clivagens, como as famosas clivagens de Rokkan-Lipset que explicam muito bem o padrão de votos baseado no comportamento da sociedade. Religião, nível de escolaridade, nível de renda, local de moradia, tamanho da família, estrutura da família e até mesmo a quantidade de habitantes da sua cidade impactam no padrão de voto dos indivíduos, até mesmo reações neurológicas e psicológicas podem impactar na escolha de um candidato (Essa é uma das razões que explicam porque cada vez o sub campo da psicologia política ganha tanta notoriedade).
Estudos recentes no campo da Política Internacional conduzidos por Brian Rathburn levantaram a hipótese de uma correlação entre preferência teórica e ideologia, psicólogos como Jonathan Haidt e Jordan Peterson explicam muito bem em suas obras as razões que levam a política e a religião a dividir a humanidade e arruinar por completo famílias, amizades e relacionamentos. Tudo isso precisa e deve estar na mente de um analista político quando ele se coloca no papel de tentar prever um resultado eleitoral.
Foi com esse objetivo em mente que o cientista político americano Allan Lichtman em conjunto com o geofísico russo Vladimir Kellis-Brook adaptou dos estudos de sismologia um método capaz de prever com uma precisão quase absoluta todos os resultados eleitorais desde a criação do método na primeira eleição de Ronald Reagan (republicano) em 1981, o método Lichtman foi utilizado em todas as eleições americanas desde então e ele apenas errou em 2024 quando previu a vitória de Kamala Harris (democrata) sobre Donald Trump (republicano). O que deixa o método Lichtman com assustadores 91% de aproveitamento.
O método consiste no exame de 13 fatores macro políticos com capacidade de impactar nas eleições e funciona em um modelo de verdadeiro ou falso, se cinco ou menos itens da lista de 13 forem considerados falsos, o incumbente vence as eleições, e se seis ou mais itens forem considerados falsos o desafiante vence as eleições.
A tentativa aqui é de aplicar o mesmo método para as eleições brasileiras com as devidas adaptações, aqui no Brasil não temos, por exemplo eleições de meio de mandato, mas o desempenho nas eleições municipais pode ser um bom substituto para esse item, também devemos lembrar que os EUA operam em uma lógica bipartidária enquanto o Brasil opera no multipartidarismo, logo é necessário também adaptar a questão da maioria nas casas legislativas, e também descartar a questão das primárias, inexistente no sistema político brasileiro.
Vamos analisar agora um por um dos tópicos para chegarmos a uma previsão quanto ao resultado eleitoral.
- Qual partido têm a maioria na câmara e no senado? Atualmente a bancada do PL têm 97 deputados federais e 15 senadores, enquanto o PT têm 64 deputados e 9 senadores. Com as devidas adaptações necessárias chegamos na conclusão de que é Falso que Lula tenha as casas legislativa a seu favor.
Lula 0 x 1 Flávio
- O Incumbente está em busca da reeleição? Sim, um dos conceitos mais tradicionais da Ciência Política, a vantagem do incumbente é um caso clássico que mostra que é mais fácil vencer estando no poder do que longe dele, devido ao acesso a máquina pública, aos favores que podem ser oferecidos e pagos no momento, os programas assistencialistas e o gasto com propagandas. Vantagem para Lula nesse quesito.
Lula 1 x 1 Flávio.
- As candidaturas fora da disputa central prejudicam quem? Ao analisar os candidatos fora da disputa central e que são significativos, ou seja, pontuam acima de 1% observamos que todos os nomes estão posicionados a direita do espectro político. Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) disputam o mesmo eleitorado com Flávio Bolsonaro e não com Lula.
Lula 2 x 1 Flávio
- A Economia vai bem no curto prazo? Sim, os dados mais recentes mostram a menor taxa de desemprego da história do Brasil, o câmbio está alto porém controlado, Superávit na Balança comercial (o país mais exporta do que importa) com uma diferença de quase 50 bilhões apesar da Inflação de 4,61% estar sim, acima da meta estipulada pelo Banco Central de 3%.
Lula 3 x 1 Flávio
- A Economia vai bem no longo prazo? Não, a taxa de endividamento público está acima de 80%, o país necessitará de uma nova reforma da previdência em breve, os juros estão muito altos, e o país apresenta uma perspectiva modesta de crescimento.
Lula 3 x 2 Flávio
- Houve alguma mudança significativa na Política Nacional? Não, o mandato atual de Lula foi marcado por uma paralisia legislativa, e sua grande vitória no congresso foi a aprovação da Reforma Tributária. Em outras pautas de grande interesse e repercussão nacional o governo foi derrotado como no PL da Censura das redes sociais.
Lula 3 x 3 Flávio
- Houve caos social? Não, fora os eventos do 08/01 de 2023 que apesar da repercussão foi algo bem pontual, o governo não teve que lidar com nada do gênero, tentativas de greve dos caminhoneiros foram frustradas, manifestações políticas da oposição não conseguiram criar um clima de insegurança no governo e nem mobilizar além do seu próprio público.
Lula 4 x 3 Flávio
- Houveram escândalos no governo? Sim, vários. A queda do ministro dos direitos humanos Silvio Almeida acusado de abusar sexualmente da colega ministra Anielle Franco, o rombo do INSS, o caso Master. Isso apenas para citar alguns, entretanto o caso Master também atingiu o principal nome da oposição em cheio, o que coloca em Xeque o que irá pesar mais na percepção do eleitor. Porém a nível do modelo Flávio têm menos esqueletos no armário.
Lula 4 x 4 Flávio
- Houve algum fracasso muito grande em matéria de Política Externa? Não, Lula conseguiu navegar em águas turbulentas com relação a crise da Venezuela com a Guiana, escapou ileso da queda de Nicolás Maduro, e conseguiu reverter múltiplas decisões americanas contra o seu governo como a redução das tarifas de 50% para 25% no atual momento e a queda das sanções direcionadas a Alexandre de Moraes.
Lula 5 x 4 Flávio
- Houve alguma vitória muito grande em matéria de Política Externa? Sim, a conclusão do acordo entre União Europeia e Mercosul após décadas de negociação foi uma vitória diplomática considerável do Itamaraty e que para sorte de Lula aconteceu no seu mandato e reduziu as resistências do setor agroexportador em relação ao governo.
Lula 6 x 4 Flávio
- O Incumbente é carismático? Sim, é inegável a capacidade de Lula de convencer e mover multidões, sua figura desafia até as lógicas partidárias e ideológicas, muitos odeiam o PT mas gostam de Lula. Claro que isso têm razões mais complexas, que perpassam pelo trabalho de Max Weber e outros sociólogos sobre tipos e modelos de liderança. Mas o fato é que o carisma de Lula é inegável.
Lula 7 x 4 Flávio
- O Desafiante é carismático? Não, Flávio Bolsonaro é um político hábil para os bastidores e entende o que é Brasília. Mas não possui a conexão espontânea e popular que o seu próprio pai Jair Bolsonaro possuía, suas tentativas de se tornar mais populista resultaram em episódios no mínimo vergonhosos como dancinhas de adolescente para tentar capturar o eleitorado jovem.
Obs: Não faz sentido a análise sobre primárias no sistema político brasileiro, por isso na adaptação, foram 12 itens, e não 13.
Resultado final: Lula 8 x 4 Flávio
Ao aplicar o modelo de Lichtman, o favoritismo de Lula fica ainda mais evidente, a oposição terá que trabalhar muito e contar com algum evento Cisne Negro para conseguir furar a capacidade preditiva de um modelo que acertou mais de 90% das suas previsões.
Referências Bibliográficas
HAIDT, Jonathan. A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020
LIPSET, Seymour Martin; ROKKAN, Stein. Cleavage structures, party systems, and voter alignments: an introduction. Party systems and voter alignments: cross-national perspectives. New York: Free Press, Pp. 1-64. 1967.
LICHTMAN, Allan J. The Keys to the White House: a surefire guide to predicting the next president. Lanham: Rowman & Littlefield, 2008.
RATHBURN, Brian. Politics and Paradigm Preferences: The implicit ideólogy of international relations scholars. International Studies Quartely. V 56, Pp 607-622. 2012.
