Imagine um eleitor que já não suporta ouvir os nomes dos dois principais candidatos que disputam uma eleição presidencial. Ele discorda de um, desconfia do outro e acompanha a campanha com a sensação de que o país está preso à mesma luta e divisão. Quando surge alguém prometendo encerrar essa disputa, sua reação é compreensível: finalmente, uma alternativa. Mas chega o dia da votação, e esse mesmo eleitor escolhe um dos favoritos. O que aconteceu entre a esperança de renovação e a decisão diante da urna?
Responder a essa pergunta ajuda a compreender a dificuldade da chamada terceira via. O cansaço do eleitor com os principais candidatos pode ser sincero e profundo. Contudo, pessoas igualmente cansadas podem querer coisas de formas diferentes, temer adversários de formas diferentes e discordar sobre quem deveria governar. Compartilhar uma insatisfação ainda não significa compartilhar um mesmo projeto.
É nessa situação que a promessa de uma alternativa a polarização costuma falhar. O desejo de mudança do eleitor é apresentada como se ele realmente fosse possível de acontecer, e como se já existesse uma maioria de eleitores organizada, apenas à espera de um nome que corresponde a espera de uma mudança.
A tese que defendo neste artigo é que uma alternativa se torna realmente viável quando consegue transformar a insatisfação dos eleitores em apoio a um projeto de governo. Para isso, precisa mostrar quais interesses pretende representar, quais decisões tomará e por que merece confiança. Também precisa reunir pessoas e organizações capazes de divulgar suas propostas, conquistar eleitores e sustentar sua candidatura. A vontade de acabar com a polarização pode despertar simpatia, mas essa simpatia não se converte automaticamente em votos.
Isso acontece porque pessoas cansadas da mesma disputa podem desejar soluções completamente diferentes. Imagine dois eleitores que rejeitam os candidatos favoritos. Um quer reduzir impostos e limitar a intervenção do Estado; o outro deseja ampliar os serviços públicos, mesmo que isso exija mais impostos. Ambos podem aplaudir alguém que promete superar a polarização. Contudo, quando esse candidato apresentar seu programa econômico, terá de enfrentar a divergência entre eles. Então, é previsível já uma divergência clara entre o acordo teorico da campanha sobre encerrar a briga, e a prática da proposta sobre como governar o país.
Por isso, precisamos distinguir três situações que costumam ser confundidas quando falamos em terceira via.
- Será que realmente existe uma terceria via?
A existência não está vinculada a ter realmente uma nova opção, mas se existe de fato nesse candidato da terceria via, uma chance real de ganhar ao ponto de ter força política que candidatos estão construindo por décadas.
- Será que esse candidato ele realmente é uma oposição a polarização política?
Um candidato pode propor pontos diferentes dos dois principais candidatos ao cargo(A e B), mas ele pode concordar em pontos similares do expectro ideologico do candidato A ou do candidato B e propor apenas aplicações diferentes. No fim, o candidato da terceria via propoe uma ruptura com a terceria via, mas na pratica é apenas uma nova polarização com poucas variações práticas.
- Será que esse candidato realmente quer seguir com cargo ou apenas se torna um peão estratégico da polarização?
Nas eleições de 2022, Simone Tebet era a candidata a presidencia que se colocava como oposição a Lula, com criticas fortes em debates e se colocando como a terceira via para o eleitor de centro-esquerda. Com a vitória de Lula, Simone Tebet curiosamente ignorou suas duras críticas de corrupção ao Lula e passou a ocupar um cargo de Ministra em seu governo. Neste caso, Simone na teoria era uma terceira via, na prática era apenas um peão estratégico, para melhorar a aceitação do governo, com base na sua presença.
Portanto, uma pessoa pode reunir as qualidades que determinado eleitor procura, mas isso não o qualifica com uma alternativa realmente viável. Da mesma forma, pode se tornar eleitoralmente forte sem representar uma ruptura com os campos políticos existentes. É esse entendimento que precisamos preservar: apresentar outro nome, construir uma candidatura competitiva e oferecer outro projeto político são tarefas relacionadas a quem se posiciona como terceria via, mas não garante a realização de fato dessa alternativa.
Eleições de 2026
O primeiro turno presidencial de 2026 ilustra a diferença entre presença e competitividade. Segundo a totalização noticiada pela Agência Estado, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Juntos, reuniram 92,19%. Augusto Cury ficou com 2,89%. Candidaturas como a dele e a de Renan Santos existiram, apresentaram outras opções e receberam votos, mas não impediram a concentração nos dois líderes. O resultado mostra o tamanho do obstáculo enfrentado naquela eleição. [1]
Para entender esse obstáculo, voltemos ao eleitor do início. Suponhamos que ele prefira o candidato C, mas considere a vitória de A especialmente prejudicial. Ao acompanhar a campanha, conclui que B possui mais condições de derrotar A. Surge um conflito: votar em quem melhor o representa ou em quem parece mais capaz de impedir o resultado que teme? Se escolher B por esse motivo, estará fazendo o que se costuma chamar de voto estratégico ou o voto útil.
Gary W. Cox examina esse tipo de problema em Making Votes Count. O autor estuda a coordenação estratégica nas eleições, isto é, como eleitores e lideranças ajustam suas decisões considerando as escolhas dos demais e as regras da disputa. Para nosso argumento, a contribuição é esta: uma candidatura depende tanto de conquistar apoio quanto de convencer as pessoas de que esse apoio pode crescer o suficiente para produzir uma vitória. [2]
Pense em dez eleitores que preferem uma alternativa, mas acreditam que quase ninguém mais votará nela. Cada um pode decidir permanecer com um favorito por receio de fortalecer o adversário. A preferência pela renovação existe, porém não se transforma em votos na mesma proporção. Para romper esse círculo, o novo candidato precisa apresentar sinais convincentes de força: apoio social, organização e capacidade de mobilização. Apenas repetir que os outros dois são ruins deixa a dúvida principal sem resposta.
Isso também explica por que somar a rejeição aos favoritos é um cálculo enganoso. Um eleitor pode rejeitar determinado governo porque deseja menos intervenção estatal; outro, porque deseja mais intervenção. Ambos estão insatisfeitos, mas discordam sobre a solução. O candidato que tenta reuni-los precisa resolver essa divergência ou construir um acordo que ambos aceitem. Não basta colocar os dois na mesma fotografia.
A polarização não será resolvida
A polarização precisa ser compreendida que ela não será resolvida. A palavra pode indicar a organização da disputa em torno de dois campos opostos, criado pelo afastamento entre suas propostas ou a hostilidade entre seus eleitores. Essas situações podem ocorrer juntas, mas são diferentes. Duas candidaturas podem concentrar votos sem que toda a população se odeie. Ou seja mesmo sem as famosas agressões pessoais, a polarização pode existir e continuar marcada por divergências profundas sobre o papel do Estado.
Essa distinção importa porque mudar o tom da conversa não resolve, necessariamente, o conteúdo da discordância. Se um grupo quer ampliar o controle estatal e outro deseja limitar esse poder, haverá uma escolha a fazer. Uma liderança educada pode conduzir melhor o debate, o que é desejável, mas continuará obrigada a tomar decisões que desagradem a alguém. Nenhum país se torna consensual porque encontrou um candidato de voz tranquila.
A terceira via no mundo
As regras eleitorais também influenciam esse processo. Nos Estados Unidos, a Presidência é decidida pelo Colégio Eleitoral. Na maior parte dos estados, quem vence a votação popular estadual recebe todos os votos daquele estado nesse colégio. Isso significa que um terceiro candidato pode ter eleitores espalhados pelo país e, ainda assim, não liderar em nenhum desses lugares. Seu apoio existe, mas encontra dificuldade para se converter nos votos que efetivamente decidem a Presidência. Os arquivos oficiais americanos registram exemplos de candidaturas de terceiros partidos que não conseguiram desafiar seriamente os grandes concorrentes. [3]
O caso de Ross Perot torna essa dificuldade mais clara. Na eleição presidencial de 1992, ele disputou como independente contra o republicano George H. W. Bush e o democrata Bill Clinton. Recebeu aproximadamente 19% dos votos populares, quase um em cada cinco votos, mas não conquistou nenhum voto no Colégio Eleitoral. Havia uma parcela expressiva da população disposta a escolher alguém de fora dos dois grandes partidos. Mesmo assim, esse apoio não foi suficiente para vencer em qualquer estado.
Como isso é possível? Na maior parte dos estados americanos, o candidato mais votado recebe todos os votos daquele estado no Colégio Eleitoral. Portanto, ter muitos apoiadores espalhados pelo país pode produzir um resultado nacional expressivo sem garantir os votos eleitorais necessários para chegar à Presidência. Perot demonstrou que existe espaço para a insatisfação com os dois partidos se transformar em votos. Demonstrou também a distância entre conquistar esses votos e convertê-los em vitória.
Ele não foi o único a desafiar esse predomínio. Em 1912, Theodore Roosevelt concorreu pelo Partido Progressista e terminou à frente do republicano William Howard Taft, embora tenha perdido para o democrata Woodrow Wilson. Esse exemplo exige cuidado com a afirmação de que uma terceira candidatura nunca pode ser forte. Ela pode, inclusive, ultrapassar um dos principais concorrentes. O que não se pode presumir é que seu crescimento eliminará as divisões políticas que atravessam a sociedade.
A experiência americana ajuda, assim, a distinguir duas promessas diferentes: oferecer uma candidatura capaz de enfrentar os partidos dominantes e superar os conflitos que dividem seus eleitores. Uma liderança pode avançar na primeira tarefa sem realizar a segunda. Trocar os protagonistas de uma disputa não significa encerrar as divergências sobre como o país deve ser governado.
No Brasil, o mecanismo é diferente. A disputa presidencial pode chegar ao segundo turno, no qual concorrem os dois mais votados. Por isso, uma candidatura inicialmente menor pode buscar a segunda posição e deixar a formação de uma aliança mais ampla para a etapa seguinte. Cox examina condições em que três candidaturas permanecem viáveis na primeira votação. A ciência política, portanto, não permite decretar que a terceira via seja impossível; permite explicar por que sua viabilidade exige mais do que disposição para concorrer. [2]
A eleição francesa de 2017 oferece outro cuidado contra afirmações absolutas. Emmanuel Macron liderou o primeiro turno com 24,01%, seguido por Marine Le Pen, com 21,30%. O caso mostra que a competição pode se reorganizar. Minha interpretação é precisamos fazer a seguinte perrgunta: como uma liderança reúne apoio suficiente para ocupar um dos lugares decisivos da disputa? O simples anúncio de que o candidato pretende superar os adversários não explica sua ascensão. [4]
É aqui que a análise conservadora deve ir além da preferência por um candidato. Uma sociedade possui instituições, hábitos, lealdades e formas de cooperação construídas ao longo do tempo. Famílias, associações, comunidades religiosas e organizações locais fazem parte dessa vida comum. Quem pretende governar precisa compreender esses vínculos e explicar como suas propostas afetarão as pessoas que dependem deles.
Nas Reflexões sobre a Revolução na França, Edmund Burke explica que uma sociedade precisa ser capaz de corrigir seus problemas para preservar sua continuidade. Conservar não significa manter todos os erros existentes. Significa reformar com cuidado, compreendendo quais instituições, costumes e vínculos sustentam a vida em sociedade, para que a tentativa de corrigir um problema não destrua aquilo que funciona.
Essa preocupação ajuda a avaliar a promessa de uma terceira via. Quando um candidato anuncia que vai renovar a política, precisamos perguntar o que pretende mudar, o que considera importante preservar e quais consequências suas propostas podem trazer. Por exemplo, uma reforma educacional pode prometer melhorar o ensino, mas também reduzir a participação das famílias nas decisões sobre a formação dos filhos. Avaliar essa mudança exige considerar tanto o benefício anunciado quanto o poder que será transferido.
Burke não escreveu sobre a terceira via. Seu pensamento oferece, aqui, um critério para julgar as promessas da terceira via: a disposição de mudar precisa vir acompanhada da responsabilidade pelo que a mudança pode produzir.
Isso nos leva à possibilidade mais interessante da renovação: uma nova liderança surgir dentro de um campo político. Imagine eleitores que continuam defendendo propriedade privada, liberdade religiosa e limites ao Estado, mas desejam outro representante. Eles não precisam abandonar essas convicções para trocar de candidato. Uma liderança capaz de preservar esses compromissos e conquistar sua confiança pode disputar o comando daquele campo e, a partir dele, buscar outros apoios.
Nesse cenário, o terceiro nome cresce porque passa a representar uma força social reconhecível. Sua novidade está na liderança, nos métodos ou nas prioridades, sem exigir que seus eleitores renunciem a tudo o que os unia. É uma possibilidade mais concreta do que esperar que duas bases organizadas percam simultaneamente suas posições de poder apenas porque alguém anunciou a reconciliação nacional e o “fim da polarização”.
A satisfação popular pode favorecer esse tipo de disputa. Se determinados princípios conquistam ampla aceitação e seus resultados são bem avaliados, diferentes candidatos podem competir pela melhor maneira de preservá-los e administrá-los. Isso se aproxima da ideia de uma alternativa que nasce dentro do campo que venceu. Mas é uma possibilidade, não uma condição obrigatória: crises, derrotas e perda de confiança também podem abrir espaço para novas lideranças. Vencer uma eleição tampouco significa encerrar as divergências da sociedade e criar novas terceiras vias tampouco dar início ao fim da polarização, mas apenas uma variação de uma nova polarização.
A dificuldade da terceira via está, portanto, em transformar uma disposição negativa, o desejo de se livrar dos protagonistas, em compromissos positivos que sustentem uma candidatura e um governo. O eleitor precisa saber quais decisões serão tomadas, quem ajudará a executá-las e por que aquela alternativa merece confiança. Sem essas respostas, a promessa de renovação depende justamente daquilo que afirma superar: a rejeição aos outros.
O eleitor do início não estava errado ao desejar uma opção melhor. Sua esperança merece ser levada a sério. Justamente por isso, merece uma candidatura capaz de explicar como pretende vencer e governar. O cansaço de um povo é motivo suficiente para cobrar mudanças. Ainda será necessário construir a força política capaz de realizá-las, mas mesmo que elas sejam realmente efetivas, sempre haverá a polarização daqueles de discordam e daqueles que concordam com a terceria via.
Referências intelectuais
Gary W. Cox — Making Votes Count: Strategic Coordination in the World’s Electoral Systems (livro, 1997). Prefácio e capítulo 7, “Some concluding comments on strategic voting”. Sustenta os parágrafos sobre coordenação estratégica e a ressalva sobre dois turnos. Melhora o argumento ao explicar mecanismos sem transformar tendências em impossibilidades. As aplicações ao Brasil são interpretações do artigo, não conclusões empíricas atribuídas ao autor. Fontes: https://www.cambridge.org/core/books/abs/making-votes-count/preface/83DACAAEAF7EA11AF9C135E90561E601 e https://www.cambridge.org/core/books/abs/making-votes-count/some-concluding-comments-on-strategic-voting/B87DD19EE488224A3342DC0ED8DF9955
Edmund Burke — Reflexões sobre a Revolução na França (obra de filosofia política, 1790). Relação entre conservação e mudança, consultada na coletânea de seus escritos e na seção “Conservation and Correction” de suas seleções. Entra no fundamento conservador: mudanças precisam considerar instituições existentes. Não constitui uma teoria de Burke sobre terceiros candidatos. Fontes: https://www.gutenberg.org/cache/epub/15679/pg15679-images.html e https://www.gutenberg.org/files/3286/3286-h/3286-h.htm
Fontes factuais
[1] Agência Estado/UOL, 5/10/2026: “Com 100% das seções totalizadas, Flávio tem 47,03%, Lula tem 45,16% e Cury, 2,89%”. A soma de 92,19% é cálculo dos percentuais publicados. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/10/05/com-100-das-secoes-totalizadas-flavio-tem-4703-lula-tem-4516-e-cury-289.htm
[2] Cox, referências intelectuais acima.
[3] National Archives, “Distribution of Electoral Votes” e “Electoral College History”. https://www.archives.gov/electoral-college/allocation e https://www.archives.gov/electoral-college/history
[4] Ministério do Interior francês, resultados oficiais do primeiro turno presidencial de 2017. https://www.interieur.gouv.fr/fr/Archives/Archives-elections/Election-presidentielle-2017/Election-presidentielle-2017-resultats-globaux-du-premier-tour
[5] Burke, referências intelectuais acima.
