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Início » Colunas » O Brasil elegeu um Congresso conservador e reelegeu Lula: a contradição que revela como o brasileiro vota
Ciência Política

O Brasil elegeu um Congresso conservador e reelegeu Lula: a contradição que revela como o brasileiro vota

Rafael Emery Gripp Pascoal
Última atualização: outubro 29, 2026 12:41 pm
Rafael Emery Gripp Pascoal 16 minutos de leitura
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O Brasil acaba de produzir um dos fenômenos mais interessantes para a Ciência Política contemporânea: elegeu um Congresso Nacional mais conservador, fortaleceu a direita no Senado, ampliou a representação parlamentar de partidos conservadores e, ainda assim, reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No segundo turno, em 25 de outubro, o resultado se inverteu: Lula foi reeleito com 51,79%, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 48,21%. Paralelamente, o PL consolidou sua posição como principal força política da direita no Congresso, com 121 deputados federais eleitos e 19 das 54 vagas em disputa no Senado.

Não estamos diante de uma simples contradição estatística. Estamos diante de uma questão política que merece ser investigada: como um eleitorado capaz de fortalecer a direita no Parlamento pode, ao mesmo tempo, entregar a Presidência da República à esquerda? A resposta pode estar, ao menos parcialmente, na maneira como o brasileiro compreende — ou deixa de compreender — o próprio sistema político.

Imagine um eleitor que vota em um deputado do PL porque se identifica com suas posições conservadoras. Escolhe um senador de direita porque considera que ele representa melhor suas convicções. Vota em um governador conservador porque aprova sua administração. Mas, quando chega à urna presidencial, escolhe Lula. Por quê? Talvez porque acredite que Lula protegerá sua renda. Talvez porque associe o presidente aos programas sociais. Talvez porque rejeite mais intensamente o candidato adversário. Ou porque considere que, apesar das divergências ideológicas, Lula seja a melhor opção para administrar o país. Todas essas motivações são possíveis e podem representar escolhas conscientes.

Entretanto, existe outra possibilidade: parte desses eleitores pode decidir cada voto isoladamente, sem compreender plenamente como as diferentes escolhas se relacionam na organização do poder político. O voto para deputado, o voto para governador e o voto para presidente não obedecem à mesma lógica institucional. O eleitor pode escolher um parlamentar pela confiança pessoal, um governador pela avaliação administrativa e um presidente pelas expectativas econômicas. Quando milhões de pessoas fazem escolhas desse tipo, o resultado coletivo pode ser uma estrutura de poder que não corresponde a uma maioria ideológica uniforme. O problema não é necessariamente votar em candidatos de diferentes correntes políticas. O problema é não compreender as consequências institucionais das próprias escolhas.

Falar em ignorância política é desconfortável, mas a discussão não deve ser evitada. Precisa, porém, ser feita com rigor. Não estou afirmando que o eleitor de baixa renda seja ignorante, que a população menos escolarizada seja incapaz de decidir ou que todo voto dividido seja irracional. Escolaridade, inteligência, conhecimento político e capacidade de julgamento são coisas diferentes. A questão é outra: quantos eleitores brasileiros compreendem efetivamente como funciona o sistema eleitoral? Quantos sabem como são distribuídas as cadeiras da Câmara dos Deputados? Quantos entendem que o voto nominal em um candidato a deputado está inserido em uma disputa proporcional? Quantos compreendem as atribuições do Congresso, do Senado, dos governadores e da Presidência da República? E, principalmente, quantos conseguem relacionar essas instituições às decisões que afetam sua vida cotidiana?

A democracia brasileira garante ao eleitor o direito de escolher seus representantes. Mas o exercício desse direito não significa que todos disponham do mesmo nível de informação sobre o funcionamento das instituições. É nesse espaço entre o direito de votar e a compreensão das consequências do voto que pode estar uma das explicações para a fragmentação eleitoral brasileira.

Existe um elemento particularmente importante nessa discussão: a influência das lideranças nas eleições legislativas. Em muitos municípios, o eleitor conhece o prefeito, confia em um vereador, acompanha uma liderança comunitária ou recebe a recomendação de alguém que considera mais informado sobre política. Esse mecanismo não é necessariamente negativo. As relações de confiança ajudam as pessoas a tomar decisões em um ambiente no qual existem muitos candidatos e informações disponíveis em excesso. O problema surge quando a recomendação pessoal substitui completamente a avaliação do candidato, de suas propostas e de sua atuação partidária.

Um prefeito pode pedir votos para um deputado de direita e obter apoio de pessoas que confiam nele. Um vereador pode recomendar determinado candidato ao Senado. Uma liderança local pode mobilizar uma comunidade em torno de uma candidatura conservadora. Essas pessoas podem seguir a recomendação para os cargos legislativos e, posteriormente, escolher um presidente de esquerda. O que explica essa diferença? Uma possibilidade é que a liderança local exerça influência sobre a escolha do parlamentar, enquanto fatores nacionais, econômicos e sociais determinem a preferência presidencial. Outra possibilidade é que o eleitor não perceba que está contribuindo para a formação de uma estrutura de poder politicamente fragmentada.

O endosso pessoal, portanto, pode ajudar a explicar a escolha de representantes específicos sem necessariamente produzir alinhamento ideológico entre todos os votos. A pergunta que permanece é se esse comportamento decorre de uma escolha consciente ou de uma compreensão limitada do sistema político.

O Brasil possui eleições diferentes para cargos diferentes. Essa característica precisa ser compreendida para que possamos interpretar corretamente o resultado de 2026. A eleição presidencial é majoritária. A disputa para deputado federal utiliza o sistema proporcional de lista aberta. Senadores e governadores são escolhidos em disputas majoritárias próprias. Isso significa que o eleitor não vota em uma única lista que determina automaticamente a orientação política de todos os poderes.

O candidato a deputado precisa conquistar votos dentro de uma disputa proporcional. O candidato à Presidência precisa vencer uma eleição nacional majoritária. Os incentivos eleitorais são diferentes, e as campanhas também. O cientista político David Samuels estudou como as regras eleitorais brasileiras influenciam os incentivos dos candidatos e a personalização da representação política. Barry Ames, Andy Baker e Lucio Rennó, por sua vez, investigaram o voto dividido no Brasil e demonstraram a importância de compreender as escolhas para diferentes cargos como um fenômeno próprio.

Essas contribuições ajudam a estabelecer um ponto fundamental: votar em candidatos de partidos diferentes não é uma anomalia do sistema brasileiro. O que precisamos compreender é por que isso acontece, em quais condições ocorre e quais são suas consequências.

Aqui chegamos ao ponto mais importante da discussão. Um eleitor pode escolher um presidente esperando que ele execute determinado programa econômico ou social. Ao mesmo tempo, pode eleger parlamentares que se opõem às principais propostas desse presidente. Quando o governo encontra dificuldades para aprovar seus projetos, quem será responsabilizado? O presidente? Os deputados? Os senadores? Os partidos que integram o governo? A oposição?

A resposta depende da situação concreta. Mas existe uma questão anterior: o eleitor compreende quais instituições possuem competência para tomar cada decisão? Se um cidadão atribui ao presidente responsabilidades que dependem de decisões legislativas, pode avaliar incorretamente o desempenho do governo. Se responsabiliza exclusivamente o Congresso por uma política que depende de decisões do Executivo, pode cometer o erro inverso. A compreensão das atribuições institucionais é essencial para que a cobrança democrática seja direcionada aos responsáveis pelas decisões.

É possível, portanto, que a fragmentação das escolhas eleitorais venha acompanhada de uma fragmentação na percepção da responsabilidade política. Essa hipótese merece investigação porque a democracia não depende apenas da possibilidade de escolher representantes. Depende também da capacidade de avaliar o que esses representantes fazem.

Um presidente eleito não recebe automaticamente o apoio da maioria parlamentar. Para aprovar projetos, executar parte de seu programa e construir maiorias, precisa negociar com o Congresso. Em um sistema multipartidário, essas negociações podem envolver diferentes partidos, interesses regionais e prioridades políticas. Quando o presidente possui um programa distante daquele defendido por parcela expressiva do Legislativo, a negociação pode se tornar mais difícil.

Isso pode aumentar o custo político da governabilidade, exigir concessões programáticas e reduzir a capacidade de executar integralmente as propostas apresentadas durante a campanha. É nesse contexto que o resultado de 2026 se torna particularmente interessante. A direita fortaleceu sua representação parlamentar, enquanto Lula venceu a disputa presidencial. O presidente reeleito terá de governar diante de um Congresso no qual as forças conservadoras possuem grande influência.

Isso não significa que o governo esteja condenado à paralisia. A direita não constitui um bloco perfeitamente homogêneo, assim como os partidos de centro não votam necessariamente de maneira uniforme. A construção de maiorias dependerá da capacidade de negociação e das circunstâncias de cada votação. Mas o cenário demonstra que vencer a eleição presidencial não significa conquistar o controle político do Congresso.

O eleitor pode escolher um presidente para governar e, simultaneamente, eleger um Parlamento que imponha limites importantes à sua agenda. A questão é se ele compreende essa relação quando deposita seu voto.

Também precisamos considerar a influência das expectativas econômicas. Para uma família em situação de vulnerabilidade, a continuidade de um benefício social, a possibilidade de conseguir emprego ou a expectativa de melhorar a renda podem ser fatores decisivos na escolha presidencial. Esse comportamento não significa necessariamente desconhecimento político. Uma pessoa pode ser conservadora nos costumes, defender posições liberais na economia e, ainda assim, votar em um candidato de esquerda porque acredita que suas políticas sociais atendem melhor às necessidades de sua família.

A política real raramente se organiza em torno de uma única variável. Entretanto, precisamos investigar se, em determinados contextos, a dependência econômica e a percepção de risco de perder benefícios aumentam o peso das expectativas distributivas na escolha presidencial, mesmo entre eleitores que votam em representantes de direita para o Legislativo.

É importante distinguir políticas sociais legítimas de práticas clientelistas. A existência de um benefício público não comprova a compra de apoio político, e o recebimento de uma transferência de renda não determina automaticamente o voto. O que nos interessa é compreender como as expectativas econômicas interagem com a identificação ideológica, a confiança nas lideranças e o conhecimento institucional.

Talvez parte do eleitorado escolha o deputado pela identidade política e o presidente pela expectativa econômica. Se isso for confirmado, teremos identificado um mecanismo relevante para explicar a dissociação entre os resultados eleitorais.

Proponho desenvolver uma hipótese de análise política que podemos denominar, provisoriamente, Teoria da Dissociação Eleitoral por Assimetria de Compreensão Institucional. A ideia central é que parte da divergência entre as escolhas para diferentes cargos pode ser explicada pela diferença entre o conhecimento que o eleitor possui sobre os candidatos e o conhecimento que possui sobre as instituições.

O cidadão pode conhecer o deputado em quem vota, confiar em uma liderança local e ter uma opinião definida sobre o presidente. Mas isso não significa que compreenda integralmente como suas escolhas se combinam para produzir uma determinada estrutura de poder. Essa hipótese precisa ser testada. Não podemos presumir que todos os eleitores que votaram em Lula e em parlamentares conservadores desconheciam o sistema político. Muitos podem ter feito essa escolha deliberadamente.

Precisamos identificar a proporção de eleitores que compreende as consequências institucionais de suas decisões e a proporção que apresenta dificuldades para relacionar os diferentes votos. Se o conhecimento institucional estiver associado a uma maior capacidade de antecipar as consequências das escolhas eleitorais, teremos um caminho promissor para desenvolver essa teoria. O objetivo não é julgar moralmente o eleitor, mas compreender os mecanismos que orientam seu comportamento.

A eleição de 2026 deixa uma lição importante: a vitória presidencial e a composição do Congresso representam dimensões diferentes da vontade popular. O fortalecimento da direita no Legislativo não impediu a reeleição de Lula. A vitória de Lula, por sua vez, não eliminou a força parlamentar dos conservadores. Essa combinação é perfeitamente possível dentro das regras democráticas brasileiras.

O que precisamos investigar é por que ela ocorre e quais são suas consequências para a governabilidade, a responsabilização política e a execução das políticas públicas. A educação política não deve ser confundida com doutrinação ideológica. Um cidadão politicamente informado não precisa votar na direita ou na esquerda. Precisa compreender as instituições, conhecer as atribuições dos cargos e avaliar as consequências das escolhas que realiza.

Uma democracia madura não exige que todos votem da mesma maneira. Exige que os cidadãos tenham condições de compreender o sistema no qual suas escolhas produzem efeitos. A questão que deixo para reflexão é simples: quando o brasileiro vota em um presidente e em um Congresso que defendem projetos diferentes, está exercendo conscientemente seu direito de equilibrar o poder ou está produzindo, sem compreender plenamente, uma estrutura política cujas consequências só perceberá depois?

A resposta pode ajudar a explicar não apenas o resultado de 2026, mas também o funcionamento da democracia brasileira. Porque, no fim, compreender como o brasileiro vota é tão importante quanto compreender em quem ele vota.

Referências e fontes para consulta

AMES, Barry; BAKER, Andy; RENNÓ, Lucio. “Split-ticket voting as the rule: Voters and permanent divided government in Brazil”. Electoral Studies, 2009.

SAMUELS, David. Pesquisas sobre personalização da representação e incentivos eleitorais no sistema político brasileiro.

ABRANCHES, Sérgio. Estudos sobre presidencialismo de coalizão.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Dados e balanço oficial das eleições de 2026.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Resultados das eleições de 2026 e composição da Câmara dos Deputados.

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Por Rafael Emery Gripp Pascoal
Rafael Gripp é cientista político, pós-graduado em Políticas Públicas, Filosofia, Política e Economia, analista político dedicado à análise das instituições, da representação democrática e do pensamento político contemporâneo e colaborador do projeto Hermenêutica Política.
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