Para um observador inserido em culturas de alta previsibilidade, o Brasil apresenta uma anomalia antropológica fascinante e, ao mesmo tempo, trágica: a institucionalização do “ficar”. Muito além de um rito de passagem juvenil, o ato de relacionar-se intimamente com alguém mantendo a porta de emergência sempre aberta, sem rótulos, sem garantias e sem pactos, consolidou-se como um traço indelével do nosso comportamento social.
Historicamente, essa dinâmica ganhou força no Brasil entre o final dos anos 1980 e a década de 1990. Em meio a uma rápida urbanização, à consolidação de uma cultura de massas hedonista e ao desejo de romper com a rigidez dos namoros e casamentos precoces das gerações anteriores, o brasileiro encontrou uma válvula de escape peculiar. As festas, as micaretas e os carnavais serviram de laboratório para a normalização de relações puramente transitórias. O “ficar” surgiu como a promessa de liberdade física e afetiva sem a “burocracia” e o peso institucional do amor tradicional.
Confesso que, em razão da minha origem e tradição judaica, não consigo me adaptar a esse cenário. Em nossa cultura, os relacionamentos são estruturados sobre o pilar do propósito e da aliança (Brit). Há uma intencionalidade sagrada no ato de conhecer alguém. Tradições como o Shidduch (encontros com o propósito expresso de avaliar a compatibilidade para o casamento) e os princípios de recato e modéstia (Tzniut) existem para garantir que a intimidade não seja banalizada. A clareza de intenções, o respeito à dignidade do outro e o foco na construção de uma vida em comum são inegociáveis.
Essa mesma objetividade reflete-se na sociedade israelense moderna. Apesar de ser um país altamente tecnológico e vibrante, a cultura em Israel é marcada pelo Tachles — uma expressão iídiche que significa “ir direto ao ponto”, falar com franqueza, sem rodeios. Em Israel, a ambiguidade prolongada das relações casuais gera impaciência; a franqueza moldada pelo senso de urgência e pelo pragmatismo do serviço militar e da sobrevivência nacional exige clareza. Para mim, essa zona cinzenta da afetividade brasileira, que foge de definições e evita a responsabilidade sobre o sentimento alheio, soa não como emancipação, mas como um profundo vazio existencial e relacional.
Contudo, reduzir esse fenômeno a um mero debate sobre a moralidade privada ou a modernidade dos costumes é desperdiçar a chance de decifrar o próprio código-fonte do Estado brasileiro. O “ficar” não é apenas uma conveniência afetiva; ele é o microcosmo de uma patologia estrutural muito mais profunda. Quando uma sociedade naturaliza a ambiguidade, repudia a formalização dos vínculos e foge da prestação de contas em suas relações mais basilares, ela invariavelmente projeta essa mesma covardia institucional nas engrenagens do poder.
O horror ao contrato e a consagração da ambiguidade
O sucesso estrondoso do “ficar” reside na conveniência irrestrita da falta de limites claros. Sem as amarras de um rótulo — sem o “contrato” social e emocional do namoro —, cada parte ganha o direito tácito de interpretar a relação como bem entender, quase sempre maximizando os próprios benefícios enquanto minimiza qualquer obrigação para com o outro. Cria-se um ambiente onde a cobrança por lealdade ou transparência é rapidamente taxada de “pressão”, “cobrança indevida” ou “apego excessivo”. É o ecossistema perfeito para o que o sociólogo Zygmunt Bauman definiu como “amor líquido”: conexões frágeis, feitas para serem desfeitas ao menor sinal de esforço. Trata-se do arranjo ideal para quem deseja vorazmente os bônus da intimidade, mas abomina o ônus da construção conjunta.
Transposta para o teatro da nossa República, essa é a exata mecânica do patrimonialismo histórico que define a burocracia estatal brasileira. A política e a administração pública no Brasil têm verdadeiro pavor da clareza republicana, da lei objetiva e do marco regulatório inflexível. O trato da coisa pública no Brasil repele o compromisso formal em favor do acordo de bastidor, da emenda parlamentar cifrada (como o famigerado “orçamento secreto”), do texto legal deliberadamente recheado de brechas e das leis que “não pegam”.
A aversão ao compromisso impessoal e transparente abre espaço para o “jeitinho” institucional. Diferente do contrato judaico ou do pragmatismo israelense, onde a palavra empenhada possui força de lei e a regra é para todos, no Brasil a ausência de contornos nítidos beneficia o transgressor. Onde não há regras claras, a vantagem pessoal de curto prazo sempre engole o projeto de nação. A lei passa a ser um instrumento de coerção apenas para os inimigos ou para os desvalidos, enquanto, para os aliados da conveniência, reserva-se a interpretação flexível, a anistia silenciosa e a impunidade garantida.
O “Centrão” e as alianças de ocasião: o Estado como ficante
Na esfera dos afetos, a relação sem rótulo é pautada pelo imediatismo absoluto. Permanece-se no relacionamento enquanto ele for prazeroso, altamente conveniente e demandar esforço zero. Ao primeiro sinal de crise, de doença, de exigência financeira ou desgaste emocional, as partes se descartam mutuamente, escudadas pela desculpa universal e covarde: “nós nunca prometemos nada um ao outro, eu sou livre”. Não há luto, não há dever de reparação, não há responsabilidade alguma pelos estilhaços emocionais deixados pelo caminho. O outro é apenas um meio para um fim temporário.
Na praça dos Três Poderes, o fisiologismo político opera, palavra por palavra, sob essa exata cartilha. As alianças partidárias, as coligações eleitorais e a construção da famigerada “governabilidade” raramente configuram “casamentos” republicanos — que deveriam ser baseados em profunda afinidade ideológica, programas de governo coerentes ou projetos de Estado a longo prazo. São, na dura e crua realidade, monumentais “ficadas” institucionais, regadas a dinheiro público.
O bloco disforme conhecido como “Centrão”, bem como outras agremiações de aluguel, age como o parceiro casual perfeito, porém predatório. Eles estão na cama com o governo de turno — seja ele de direita, centro ou esquerda — única e exclusivamente enquanto houver orçamento a ser loteado, diretorias de estatais a serem ocupadas e ministérios de “porteira fechada” a serem loteados. Quando a popularidade do presidente derrete, quando a economia fraqueja ou quando um escândalo inevitável explode, essa aliança é descartada com a frieza de quem simplesmente apaga um contato indesejado do celular. Não há fidelidade ao plano de governo, apenas ao pragmatismo do poder. E o mais estarrecedor: logo na eleição seguinte, após promoverem o descarte ou até mesmo o impeachment do antigo parceiro, esse mesmo grupo está perfeitamente pronto e maquiado para “ficar” com o próximo ocupante do Palácio do Planalto, exigindo o mesmo dote.
A herança do “Homem Cordial” e a cultura da irresponsabilidade
A base de uma democracia republicana madura é a impessoalidade e a certeza inabalável de que a quebra do pacto legal gera consequências concretas, rápidas e severas. A responsabilidade é o preço da cidadania. No entanto, fomos histórica e sociologicamente moldados pela figura do “homem cordial”, conceito brilhantemente delineado por Sérgio Buarque de Holanda. É fundamental não confundir “cordialidade” com educação ou gentileza. O homem cordial age pelo coração (cordis), pela emoção imediata, pelos laços de sangue e amizade, abominando a formalidade fria e impessoal da lei. Ele confunde constantemente a esfera pública com a extensão do quintal de sua casa. Para esse indivíduo, a lei cega, fria e objetiva é sentida como um insulto pessoal intolerável. Ele prefere a negociação escusa, o favor, o apadrinhamento e o apaziguamento das tensões através da quebra sistemática das regras.
Se nas relações íntimas essa falta de contornos claros gera um rastro de irresponsabilidade afetiva — mascarada pelo discurso fútil do “desapego” —, na macroestrutura do Estado ela pavimenta a autoestrada da corrupção e da impunidade. O antropólogo Roberto DaMatta, em suas análises sobre a sociedade brasileira, explica o poder da famosa frase “Você sabe com quem está falando?”. É o grito de guerra do patrimonialismo, a exigência para que a lei seja suspensa em nome de uma relação pessoal ou de um status superior.
Os grandes esquemas de corrupção, os superfaturamentos endêmicos e as trocas ilícitas de favores entre empreiteiras, lobistas e políticos não são acidentes de percurso; são tratados pelo próprio sistema como arranjos orgânicos, lubrificantes essenciais para fazer a máquina estatal engessada funcionar. Quando uma grande operação de combate à corrupção expõe a ferida de forma implacável, o sistema entra em choque. Mas o choque não ocorre por repúdio moral à corrupção; o ultraje do establishment acontece pela ousadia das instituições em tentar aplicar a lei sem respeitar as “nuances” e os acordos de cavalheiros do “arranjo”. Imediatamente, o sistema se protege, reorganiza-se, aprova leis de leniência afrouxadas, muda de parceiros corporativos e políticos, e o ciclo recomeça, deixando a conta colossal para o cidadão comum.
O amadurecimento necessário rumo à clareza
A corrupção sistêmica não cai de paraquedas no Congresso Nacional, nem é um vício restrito aos políticos; ela brota do mesmo solo cultural fértil que alimenta as nossas interações diárias mais banais. Ela é a expressão institucional e macroeconômica dos valores que nós mesmos cultivamos no microcosmo social. Enquanto continuarmos celebrando a informalidade malandra como nossa maior virtude, romantizando o “jeitinho” e tratando o compromisso — seja ele o da palavra empenhada em um afeto, o da assinatura em um contrato legal ou o juramento a uma Constituição — como um fardo incômodo a ser evitado, continuaremos prisioneiros de uma República eternamente adolescente.
Se olharmos para a experiência de Israel, veremos que um Estado forte, resiliente e próspero foi construído em um ambiente de extrema hostilidade e escassez precisamente porque baseou-se na força dos pactos, na clareza das intenções (Tachles) e na coesão gerada pela responsabilidade mútua, valores que remontam diretamente ao conceito bíblico de Aliança. O povo assume a responsabilidade pela sua nação de forma irrevogável.
Superar o nosso crônico ciclo de atraso civilizatório, desigualdade abissal e degradação moral exige infinitamente mais do que pacotes anticrime reformulados ou mudanças estéticas na legislação eleitoral. Exige uma profunda, inadiável e corajosa mudança de postura cultural. Requer de nós, enquanto sociedade civil, a coragem moral para abandonar o conforto entorpecente da ambiguidade e assumir, com a austeridade e a seriedade que a fase adulta exige, o peso e a beleza irrenunciável dos pactos que firmamos. Pois uma nação que trata a si mesma, seus cidadãos e o seu futuro coletivo como um mero caso passageiro, jamais construirá um Estado digno de prosperar e durar na história.
Referências:
- BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. (Abordagem sobre a liquidez, a transitoriedade e a falta de compromisso nas relações modernas).
- DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. (Análise estrutural da distinção entre a “casa” e a “rua”, o jeitinho brasileiro e a aversão à impessoalidade das leis).
- FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. São Paulo: Globo, 2001. (Obra fundamental para a compreensão do patrimonialismo estatal e das relações promíscuas entre os interesses públicos e privados).
- HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (Estudo fundacional sobre o conceito do “Homem Cordial” e a herança do personalismo na política e na sociedade brasileira).
- SACKS, Jonathan. Morality: Restoring the Common Good in Divided Times. Nova York: Basic Books, 2020. (Visão judaica sobre a ética, a responsabilidade coletiva, a importância da Aliança [Brit] em contraponto ao individualismo e aos relacionamentos puramente transacionais).
