A situação eleitoral no Brasil vem ganhando ao mesmo tempo contornos um tanto quanto shakespearianos na família Bolsonaro, o caso Master e o financiamento de uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro expôs Flávio Bolsonaro aos olhos da população como alguém não confiável. O impacto nas pesquisas eleitorais foi imediato, olhando pelo copo meio cheio seu lugar no segundo turno parece garantido de toda maneira, mas as chances de vitória despencaram, a ruptura pública com sua madrasta Michelle Bolsonaro também colocou o senador na defensiva, além dos fortes rumores de que é apenas questão de tempo até que um vídeo impróprio para menores coloque também o seu casamento em xeque, soma-se a isso que a guerra pelo verdadeiro espólio de Bolsonaro com a queda do primogênito já começou. Michelle, Tarcísio, Nikolas Ferreira e vários outros nomes tentam herdar o espólio enquanto modernizam o discurso do bolsonarismo para furar a bolha, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL perdeu o controle do partido e não consegue mais pacificar o reino.
É a tempestade perfeita para Lula, o petista pode simplesmente jogar parado e deixar uma combinação de fogo amigo, incompetência e amadorismo da direita fazer o resto. Não é sem motivo que os mercados preditivos já colocam Lula com um favoritismo para ganhar a eleição acima de 60%. E justamente analisando esses mercados preditivos me ocorreu um pensamento um tanto quanto inquietante, mas que poderia explicar o que uma visão superficial sobre essas eleições seria incapaz de fazê-lo. E se o plano da direita for perder de propósito as eleições presidenciais?
Eu sei, eu sei… Já ouvimos isso antes, o famoso Xadrez 5D que os militantes mais inflamados do ex-presidente alardeavam quando seus erros políticos apareciam materializados, mas garanto aqui que não se trata de Xadrez 5D mas sim de uma técnica de previsão de cenários já conhecida nos meios militares e de inteligência e que pode ser transportada para a ciência política.
A origem do “E se” enquanto ferramenta para uma possível análise, deriva de uma simples observação, o ser humano sempre tenta prever o futuro.
Várias tentativas de previsões do futuro podem ser identificadas ao longo da história, civilizações antigas criaram rituais para tentarem antecipar os resultados de fenômenos da natureza, colheitas, batalhas, muitas vezes determinando as decisões. A história e a mitologia apresentam vários exemplos que ilustram a necessidade humana de ver o futuro, ou seja, de uma visão prospectiva. A mitologia grega nos traz a estória de Cassandra, cujas profecias e previsões não foram levadas a sério, o que teria culminado com a queda da Cidade-Estado de Tróia. (SOARES, 2023, p 16)
Ao longo dos séculos posteriores, em especial após o desenvolvimento do Iluminismo e da Ciência Moderna, se chegou até a conclusão de que seria mais fácil acertar essas previsões com algum tipo de método, do que deixando tudo solto apenas na vontade humana de prever o futuro. Após a Segunda Guerra Mundial que os métodos modernos de projeção de cenário se consolidam, não como uma garantia de acerto, mas como uma ferramenta de redução da incerteza e ampliação de conforto para os tomadores de decisão sejam eles públicos ou privados. O “E se” faz parte desse estudo.
Muitas vezes pensar no absurdo te dá o caminho para a realidade, mas apenas se amparado por um bom método, uma observação factível da realidade, e uma percepção já experiente nos assuntos que se tenta prever.
Transportando esse método para a Ciência Política podemos observar que talvez exista sim uma estratégia por trás da aparência de incompetência que a direita brasileira vem demonstrando com relação ao pleito presidencial de 2026. Quais seriam essas razões, meu ex-professor e hoje amigo Adriano Gianturco afirmou ainda durante as eleições de 2022 que a direita ganhou cedo demais o poder, não estava preparada, não sabia operar a máquina. E o professor Gianturco não está sozinho nessa afirmação, o filósofo Olavo de Carvalho, que sempre foi próximo dos círculos de poder do bolsonarismo também disse que de nada adiantaria ter a presidência da república sem os outros meios de poder, seja formais como a câmara e o senado, ou na sociedade civil como associações de classe.
A direita brasileira nasceu enquanto força política significativa em 2013 e já chegou ao poder em 2018. Não houve amadurecimento tanto político, administrativo quanto intelectual em seus líderes, era sem dúvida alguma uma vitória de pirro. Esse é o mesmo cenário que se apresenta em 2026.
O cenário em caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro traria desafios econômicos de uma magnitude talvez até maior que a que Michel Temer teve que enfrentar após o Impeachment de Dilma Rousseff. As contas públicas estão em um momento crítico e Lula, ao menos enquanto não assegurar a reeleição, não tem incentivo nenhum em reverter o curso, como a Teoria da Escolha Pública de Buchanan e Tullock nos ensina, entre escolher o benefício político e o econômico, um político sempre escolherá o político, pois os benefícios são concentrados e os custos difusos. Lula poderá adotar várias medidas de austeridade fiscal que são necessárias para o Estado brasileiro caso ele vença as eleições, porque ele não pode se reeleger mais, o incentivo então passaria a ser preparar um sucessor e não levar na própria biografia que o país quebrou em seu mandato.
Uma nova reforma da previdência não é mais questão de se, mas de quando, a pirâmide demográfica se inverteu, o país está envelhecendo e não está enriquecendo, um cenário que já era observável nas eleições de 2014 conforme meu ex-professores e amigos Helio Berni e Reginaldo Nogueira do Ibmec-BH diziam ainda nas primeiras aulas.
A Dívida Pública representa atualmente quase 82% do PIB, o maior valor nos últimos cinco anos. O que o governo vem gastando para a rolagem dessa dívida já passou 1 trilhão de reais, o que representa 10% do PIB. Além disso, a única coisa que impede o Brasil de entrar em uma espiral inflacionária com potencial destruidor é o elevado nível da Taxa Selic que controla a inflação, porém reduz os investimentos, e freia o crescimento do país.
Partindo desse breve diagnóstico, seria realmente inteligente que Flávio Bolsonaro vencesse as eleições? Caso Flávio minimamente sinalizasse uma nova reforma previdenciária sua reeleição já estaria em xeque-mate, e de novo a direita teria apenas um mandato. Fazendo todo o trabalho sujo de sanar a economia do país, apenas para ser derrotada em 2030 com a volta da esquerda de novo.
Saindo do campo econômico, outras duas preocupações podem saltar aos olhos, a constante influência da China no Brasil, que já despertou os Estados Unidos de um longo sono em relação ao seu entorno regional, e a possibilidade de Lula encher o Supremo Tribunal Federal com outros nomes altamente ideológicos como Flávio Dino.
Quanto a primeira dessas preocupações, a nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos deixa claro que os tempos da China nas américas acabaram, a potência continental não é o dragão e sim a águia, e os americanos já viram que Lula também sabe ceder aos seus interesses. Quanto a segunda, após a rejeição de Jorge Messias para o STF podemos dizer que a porteira já está aberta, o senado já se cansou das ingerências e interferências da corte, e a ação bélica contra o congresso começou a estourar mais no próprio STF do que no senado e a situação tende a piorar para o STF pois as mesmas previsões que dizem que Lula vai vencer dizem que a Direita crescerá na câmara e principalmente no Senado. O governo Lula continuará um pato manco na prática, ainda que reeleito.
O que se coloca perante a direita brasileira agora é escolher, uma vitória de Pirro em outubro ou uma visão de longo prazo que garanta talvez 16 anos da direita no poder em uma dobradinha de Tarcísio e Nikolas Ferreira após 2030?
Referências Bibliográficas
O Uso de Cenários prospectivos na elaboração de políticas e estratégias de defesa, Cel Inf Airton José de Oliveira Soares. ECEME. 2023.
BUCHANAN, James ; TULLOCK, Gordon. The calculus of consent: logical foundations of constitutional democracy. Indianapolis: Liberty Fund, 1999.
GIANTURCO, Adriano. A Ciência da Política : Uma Introdução. Rio de Janeiro. Grupo GEN. 2018.
