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Início » Colunas » Uma breve autópsia do que já foi uma grande Nação
Política Internacional

Uma breve autópsia do que já foi uma grande Nação

Rodrigo Bueno
Última atualização: março 26, 2026 12:44 pm
Rodrigo Bueno 8 minutos de leitura
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William Shakespeare, Winston Churchill, Margareth Thatcher, Isaac Newton, Alan Turing, William Blake… Todos nomes icônicos ainda estudados na atualidade, todos eles tinham algo em comum… Eram ingleses. Ao longo da história nenhuma nação gerou tantas figuras influentes para o mundo quanto a Inglaterra. Sua marinha já foi a maior força do mundo, foram os principais responsáveis ao lado dos Russos para colocar fim aos planos de Napoleão Bonaparte, seu imponente império que governou o mundo durante o século XIX e na primeira metade do século XX agora é apenas uma sombra do que já foi… Por séculos a monarquia britânica era admirada globalmente pela sua elegância e classe, quando Elizabeth II infelizmente veio a falecer em 2022 o mundo sentiu uma profunda tristeza, mas havia algo a mais ali, uma percepção de que a última grande inglesa havia partido. Muito se fala, de forma exagerada e carregada de ideologias revisionistas de um suposto fim dos Estados Unidos, mas o declínio inglês é muito mais evidente.

Como ponto de partida adotarei a teoria exposta pelo historiador britânico Paul Kennedy em a Ascenção e Queda das Grandes Potências (1988) e também trarei ás contribuições da teoria do Choque de Civilizações do cientista político Samuel Huntington (1993) e as análises culturais de Roger Scruton e Theodore Dalrymple

Kennedy analisa 500 anos de história das grandes potências, argumentando que a ascensão de uma potência correlaciona-se à superioridade econômica sustentada pelo poder militar, essa inclusive é uma das razões pela qual a China é incapaz de assumir o papel que os revisionistas da ordem almejam tirar dos Estados Unidos. O GAP especialmente militar entre ambos é gigantesco. Os EUA investem anualmente quase 1 trilhão de dólares em defesa enquanto a China apenas 200 bilhões. No argumento de Kennedy o declínio da potência surge quando os gastos bélicos desviam recursos da economia, em especial dos setores ricos em inovação. No caso inglês o auge veio pós-Revolução Industrial, com 22,9% da manufatura mundial em 1880, mas rivais como os Estados Unidos (30% em 1913) e Alemanha (14% em 1916) erodiram essa liderança.

O segundo ponto fundamental da obra de Kennedy é a sua ênfase no poder relativo e na correlação entre armas e dinheiro, em outras palavras não adianta apenas desenvolver um bom polo tecnológico, se tornar uma potência financeira como Londres fez durante os anos de Guerra Fria. Alianças geopolíticas como a OTAN e o relacionamento especial que os britânicos possuem com os Estados Unidos apenas retardam o processo, não o revertem. E é justamente isso que têm despertado talvez tardiamente muitos britânicos que se cansaram do “declínio controlado” vendido como política de Estados por décadas.

Trazendo a teoria de Huntington para a análise. A Inglaterra tem uma característica peculiar associada ao seu Ethos original enquanto nação, é uma nação extremamente prudente e moderada. Enquanto as ameaças eram apenas de origem material como Guerras e Crises econômicas os Ingleses sempre souberam navegar bem pelos problemas mesmo que isso deixasse sequelas como as vitórias na segunda guerra mundial e na guerra das malvinas deixou. Mesmo durante a Guerra Civil Inglesa que foi brutal e sangrenta, ainda assim não houve um derramamento de sangue generalizado como na França Revolucionária. Whigs e Tories negociavam e buscavam um “Common Ground” mas isso só era possível porque haviam laços culturais e nacionais maiores do que hoje em dia.

A Política Identitária matou o “Common Sense” britânico, desde David Cameron os Conservadores apresentaram um quadro pior que o outro, desde o folclórico Boris Johnson aos mandatos relâmpago de Liz Truss e Rishi Sunaki, e os trabalhistas quando tiveram a chance de voltar ao poder, longe de um Tony Blair, conseguiram piorar o trabalho conservador com Keir Starmer. Autores como Roger Scruton e Theodore Dalrymple alertaram para o declínio não só material como Kennedy e não apenas do conflito civilizacional externo como Huntington. Roger Scruton quis dizer isso quando cunhou o termo Oikophobia “a necessidade sentida de denegrir os costumes, a cultura e as instituições que são inequivocamente “nossas” (SCRUTON, 2004, p 33)

O ocidente influenciado pelos ideais progressistas da chamada Nova Esquerda desenvolveu um ódio genuíno por tudo aquilo que representa a sua história e a sua própria cultura. O próprio método de desconstrução de Derrida é um exemplo “ Derrida é um clássico oikofobo na medida em que repudia o anseio por um lar que as tradições teológicas, jurídicas e literárias ocidentais satisfazem… A desconstrução de Derrida busca bloquear o caminho para essa ‘experiência central’ de pertencimento, preferindo, em vez disso, uma existência sem raízes fundada no nada ” (DOOLEY,2009,p 83)

Dalrymple argumenta que, ao usar as minorias como instrumento de perseguição da cultura local tradicional, o multiculturalismo inverte a lógica da verdadeira diversidade: a diversidade que construiu a Inglaterra foi interna (regional, de classe, religiosa), não a importação de culturas hostis à assimilação.

A Questão é que uma nação cuja principal característica é a adaptabilidade não consegue responder ao Choque de Civilizações de forma adequada, mesmo que formalmente a Inglaterra não esteja mais na União Europeia e não tenha que se submeter ao suicídio civilizacional da política imigratória de Bruxelas pouca coisa mudou em relação ao fim do que é a Inglaterra e o Britânico desde então, a ameaça ao mesmo tempo é externa, interna e difusa… o primeiro ministro Keir Starmer apesar de alguns acertos na área da Política Externa relacionados a OTAN e ao aumento dos investimentos em defesa têm se mostrado incompetente para estar no cargo e não têm conseguido proteger o seu povo da invasão civilizacional promovida pela imigração islâmica.

Uma possível eleição do reformista Nigel Farage apoiado por Trump pode estancar a sangria que ameaça a Inglaterra mas conhecendo os ingleses, uma política de imigração mais rígida será percebida como traição ao Ethos britânico, a questão que se apresenta agora é que a Imigração está rapidamente atacando esse mesmo Ethos. Os britânicos irão assistir ou lutar? Pelo resultado das últimas pesquisas eleitorais a completa falência dos partidos tradicionais como o Conservador e o Trabalhista demonstram ao menos uma disposição de tentar retomar o seu país de volta.

Referências Bibliográficas

DALRYMPLE, Theodore. Our Culture, What’s Left of It: The Mandarins and the Masses. American Entreprise Institute. 2014.

DOOLEY, Mark. The Philosopher on Dover Beach. Londres. Continuum. 2009

 HUNTINGTON, Samuel. The Clash of Civilizations?. Foreign Affairs. Vol 72. Pp 22-49. 1993

KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Campus. São Paulo. 1989

SCRUTON, Roger. England and the need for Nations. Londres. Civitas. 2004

https://www.globalfirepower.com/countries-listing.php ( Acesso em: 24/03/2026)

https://www.statista.com/statistics/985764/voting-intention-in-the-uk/ ( Acesso em: 24/03/2026)

MARCADO:#InglaterraEuropaHUNTINGTONscruton
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Por Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno é bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais (IBMEC). Pós graduado em Inteligência e Contra Inteligência pela Associação Brasileira de Estudos de Inteligência e Contra Inteligência (ABEIC/CSABE). Mestrando em Política Internacional ( PUC Minas ).  Seu foco principal de estudos é a área da Política Internacional, Filosofia Política e Ciência Política. Colaborador ocasional do Instituto Mises Brasil. Publicou artigos pela Editora Dialética sobre o pensamento de Raymond Aron, Samuel Huntington e a História do Conservadorismo. Sócio-Fundador e Membro do corpo editorial do Grupo Hermenêutica Política desde 2020. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3687844525565262
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sbytelU
março 29, 2026 10:47 am

Excelente análise baseada em Paul Kennedy. É fascinante e preocupante observar como a correlação entre poder econômico e militar define o ciclo de vida das nações. Como estudante de tecnologia, vejo que a inovação exige uma base institucional sólida, e o texto alerta bem sobre os riscos quando essa base é negligenciada em prol de políticas identitárias.

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